Reino Unido seleciona o HSBC Orion para emitir títulos de dívida on-chain, iniciando um teste de blockchain no mercado de 2,5 trilhões de libras

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O Ministério das Finanças do Reino Unido anunciou a seleção do Orion, plataforma de blockchain pertencente ao HSBC, como fornecedor tecnológico para o projeto-piloto de emissão de títulos de dívida digitais (DIGIT), com planos de testar na sandbox regulatória da FCA os processos de emissão, distribuição e liquidação de títulos soberanos na blockchain.
(Antecedentes: o Reino Unido ativou o cronômetro para 2027, expandindo a regulamentação financeira tradicional para criptomoedas)
(Complemento: o Reino Unido abandonou a ideia de isentar de impostos as stablecoins de DeFi; fundador da Aave afirma: vitória dos usuários de DeFi)

Índice do artigo

  • O que é o DIGIT: versão nativa de blockchain para títulos de dívida soberana
  • HSBC Orion: plataforma que já emitiu 3,5 bilhões de dólares em títulos digitais
  • O Reino Unido não é o primeiro, mas seu impacto é grande
  • O verdadeiro gargalo da tokenização não é a tecnologia, mas a liquidez
  • O verdadeiro significado da tokenização da dívida soberana

Segundo a Bloomberg, o HSBC declarou que sua plataforma de blockchain Orion foi selecionada pelo Ministério das Finanças do Reino Unido como fornecedor tecnológico para o projeto piloto de emissão de títulos de dívida digital (DIGIT). Isso significa que a sexta maior economia global realizará testes completos, desde emissão até liquidação, de sua dívida soberana na blockchain.

Em outubro de 2025, o Ministério publicou um edital oficial buscando fornecedores capazes de “emitir, distribuir e liquidar títulos de dívida digital”. Após meses de avaliação, o HSBC foi o vencedor. A escolha do governo britânico recai sobre um banco tradicional com 160 anos de história, indicando que a tokenização de nível soberano tende a seguir uma abordagem institucional, não descentralizada.

O que é o DIGIT: versão nativa de blockchain para títulos de dívida soberana

DIGIT não é simplesmente transferir registros de títulos existentes para a blockchain, mas sim criar uma infraestrutura nativa desde o momento da emissão. Todo o ciclo de vida — emissão, distribuição, negociação, liquidação — ocorre em registros distribuídos.

O HSBC afirma que a principal vantagem dessa arquitetura é a velocidade de liquidação. Enquanto a liquidação de títulos tradicionais do Reino Unido (gilts) leva T+1 (um dia útil após a negociação), títulos na blockchain podem, teoricamente, liquidar quase que instantaneamente. Para um mercado que lida com dezenas de bilhões de libras em títulos diariamente, essa melhoria na velocidade de liquidação aumenta a eficiência de capital e reduz o risco de contraparte.

O projeto piloto será realizado na sandbox de valores mobiliários digitais da FCA, permitindo que empresas testem aplicações de tecnologia de registros distribuídos sob um quadro regulatório temporariamente ajustado.

HSBC Orion: plataforma que já emitiu 3,5 bilhões de dólares em títulos digitais

A plataforma Orion do HSBC não foi criada do zero. Segundo dados do banco, ela já facilitou a emissão de mais de 3,5 bilhões de dólares em títulos digitais nativos, envolvendo clientes de organizações supranacionais, bancos centrais, instituições financeiras e corporações.

Casos emblemáticos incluem: em 2023, o Banco Europeu de Investimento (BEI) emitiu seu primeiro título digital em libras através do Orion; em 2025, o governo de Hong Kong emitiu um green bond multimoeda de 1,3 bilhão de dólares usando a plataforma; o Qatar National Bank (QNB), um dos maiores bancos do Oriente Médio, também emitiu 500 milhões de dólares em títulos digitais na Orion.

Todos esses emissores são instituições de nível soberano ou quasi-soberano. Orion não é uma plataforma DeFi voltada para investidores de varejo, mas uma plataforma blockchain autorizada, projetada para emissão de títulos de nível institucional. A escolha do Ministério das Finanças do Reino Unido reforça uma abordagem “de cima para baixo” na tokenização.

O Reino Unido não é o primeiro, mas seu impacto é grande

A emissão de títulos digitais soberanos não é uma inovação exclusiva do Reino Unido. Suíços, singapurenses, de Hong Kong e Luxemburgo já realizaram experimentos de diferentes escalas. Contudo, há aspectos que tornam a iniciativa britânica particularmente relevante.

Primeiro, a escala. O mercado de títulos do Reino Unido ultrapassa 2,5 trilhões de libras, sendo o quarto maior do mundo. Mesmo que o projeto piloto DIGIT cubra apenas uma parte, seu efeito demonstrativo será de grande impacto, muito além de economias menores.

Segundo, o nível de decisão política. Não se trata de uma iniciativa de bancos centrais ou reguladores, mas de uma decisão direta do Ministério das Finanças. Em novembro de 2024, a ministra Rachel Reeves anunciou em um jantar oficial que o Reino Unido começaria a emitir títulos digitais em dois anos, demonstrando um compromisso de alto nível.

Terceiro, o ecossistema de suporte. Além do DIGIT, o Reino Unido está avançando em outras iniciativas de tokenização: a UK Finance, junto com seis grandes bancos (Barclays, HSBC, Lloyds, NatWest, Nationwide, Santander), está realizando um piloto de tokenização de depósitos em libras (GBTD), previsto para até meados de 2026. A combinação de títulos digitais e depósitos digitais de libra forma os dois pilares do mercado de capitais na blockchain no país.

O verdadeiro gargalo da tokenização: liquidez, não tecnologia

A Bloomberg destacou uma realidade importante: embora a emissão de ativos tradicionais na blockchain esteja crescendo, o mercado de títulos tokenizados ainda é pequeno em relação ao total. Parte do problema é a falta de um mercado secundário líquido para esses ativos.

Esse é um aspecto frequentemente negligenciado na narrativa de tokenização. Emitir um título digital não é difícil; o desafio é garantir que ele seja negociado, fornecido com market makers e usado como garantia no mercado secundário. A alta liquidez do mercado de títulos tradicionais se deve a décadas de infraestrutura consolidada: sistema de dealers principais, mercado de recompra, operações de política monetária do banco central.

Essas instituições não se reconstruirão automaticamente apenas por trocar o banco de dados centralizado por uma blockchain.

Segundo a Boston Consulting Group (BCG), a emissão de títulos digitais deve atingir 800 bilhões de dólares até 2030. Embora esse número seja expressivo, representa menos de 1% do mercado global de títulos, que ultrapassa 130 trilhões de dólares.

Em outras palavras, a infraestrutura tecnológica para a tokenização de títulos soberanos está sendo criada, mas a infraestrutura de mercado — market makers, clearing houses, gestão de garantias — ainda precisa evoluir.

O verdadeiro significado da tokenização da dívida soberana

A escolha do HSBC pelo Reino Unido, em vez de uma startup de cripto nativa, envia uma mensagem clara: o futuro da tokenização soberana não é “DeFi substituindo o sistema financeiro tradicional”, mas “o sistema financeiro tradicional adotando a tecnologia blockchain”.

Para a indústria de criptomoedas, isso é uma boa notícia e uma má notícia. Boa, porque a tecnologia blockchain está sendo reconhecida por instituições conservadoras; nada reforça mais essa credibilidade do que o fato do Ministério das Finanças colocar títulos soberanos na blockchain.
Ruim, porque os vencedores dessa trajetória provavelmente não serão protocolos DeFi, mas instituições financeiras tradicionais capazes de atender às exigências de conformidade, segurança e escala soberana.

Levar títulos soberanos para a blockchain é uma vitória técnica do blockchain e uma vitória comercial do sistema financeiro tradicional. Quem se beneficiará mais, no final, dependerá de a liquidez do mercado secundário acompanhar a tokenização. Sem liquidez, ativos tokenizados não diferem de um simples certificado em PDF.

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