A empresa de inteligência em blockchain TRM Labs revelou em seu último relatório que duas exchanges de criptomoedas registradas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion, processaram entre 2021 e 2025 transações de até aproximadamente 1 bilhão de dólares relacionadas com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, das quais o fluxo de fundos ilegais chegou a representar até 87 % do volume total de transações.
A investigação mostrou que essas exchanges, por meio de estruturas complexas de empresas de fachada, endereços virtuais de escritório e integração com gateways de pagamento na Turquia, construíram uma rota financeira secreta eficiente para evitar sanções internacionais, chegando a financiar diretamente organizações terroristas sancionadas pelos EUA. Este caso evidencia como entidades de países sancionados estão cada vez mais dominando o cenário do crime cibernético em criptomoedas, com o montante de atividades ilegais crescendo 694 % em 2025, atingindo 154 bilhões de dólares, sendo 84 % realizados em stablecoins (principalmente USDT), sem dúvida um alerta severo para reguladores globais e para a conformidade na indústria de criptomoedas.
Rota secreta de 1 bilhão de dólares: como exchanges registradas no Reino Unido se tornaram o “Escudo Financeiro” do Irã
Uma rede financeira complexa que atravessa o Reino Unido, Oriente Médio e Turquia começou a se revelar sob a investigação de empresas de inteligência em blockchain. Segundo um relatório aprofundado da TRM Labs divulgado em 9 de janeiro, duas exchanges de criptomoedas aparentemente comuns, Zedcex e Zedxion, registradas no Reino Unido, desempenharam, ao longo de vários anos, um papel central como hubs de financiamento externo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Estima-se que, do total de transações processadas por essas plataformas, cerca de 10 bilhões de dólares possam ser rastreados até a organização militar sancionada, com atividades ilegais atingindo um pico de 87 % em 2024. Este caso não só envolve valores elevados, mas também por sua sofisticada disfarce corporativo e conexão com o sistema financeiro global, tornando-se um dos exemplos mais emblemáticos de evasão de sanções nacionais via criptomoedas.
Ao aprofundar na origem dessas exchanges, uma fachada empresarial cuidadosamente elaborada foi revelada. Apesar de terem sido registradas em 2021 e 2022 no Reino Unido, investigações indicam que operam como uma única entidade. Compartilham diretores, usam o mesmo endereço virtual de escritório e demonstram alta coordenação operacional, apontando para uma estrutura de comando unificada. Crucialmente, registros apontam que Zedcex está ligado a Babak Morteza Zanjani, um sancionado iraniano que, desde 2013, foi alvo de sanções dos EUA e UE por lavagem de bilhões de dólares em receitas de petróleo em nome de entidades do regime iraniano, incluindo a IRGC. Apesar de ter sido condenado à morte por apropriação de ativos estatais no Irã, sua pena foi reduzida após pagamento de dívida em 2024, e ele voltou a atuar por meio do grupo DotOne Holding Group, que atua no setor de criptomoedas, câmbio e logística, mantendo uma relação ambígua com o regime.
A escala e a evolução do fluxo de fundos revelam o ciclo de atividade dessa rota. Dados indicam que o volume de transações envolvendo endereços ligados à IRGC na Zedcex saltou de 23,7 milhões de dólares em 2023 (60 % do total da plataforma) para 619,1 milhões de dólares em 2024 (87 %). Este aumento pode estar relacionado ao aumento da pressão de sanções internacionais e ao aperto nos canais financeiros tradicionais. Em 2025, embora o volume total ainda seja de 410,4 milhões de dólares, o fluxo de fundos não ligados à IRGC aumentou, reduzindo a proporção para 48 %. Essas oscilações podem refletir pressões de investigação, ajustes de risco pelas plataformas ou mudanças na estratégia de alocação de fundos pelo Irã. De qualquer forma, o fluxo de até 10 bilhões de dólares por meio dessas contas aparentemente “inativas” no Reino Unido expõe vulnerabilidades no sistema global de registro de empresas e na regulação financeira frente a entidades criptográficas.
Empresas de fachada e gateway de pagamento na Turquia: análise do modelo de “finanças híbridas” para evasão de sanções
A continuidade e escala desse esquema dependem de uma estrutura que combina disfarces tradicionais de empresas, pagamentos anônimos via blockchain e entrada de moeda fiduciária, formando um modelo de “finanças híbridas”. Este não se limita à simples utilização do anonimato das criptomoedas, mas integra sistematicamente vulnerabilidades de múltiplas jurisdições, criando uma cadeia de valor completa que conecta entidades sancionadas a bens e serviços no mundo real. Sua lógica operacional pode ser dividida em três camadas: disfarce de front-end, ponte de stablecoins e liquidação de moeda fiduciária no back-end, cada uma visando dificultar rastreamento e evitar fiscalização.
Na camada frontal, Zedcex e Zedxion aproveitam a flexibilidade (e possíveis brechas) do sistema de registro de empresas do Reino Unido. Utilizam diretores fictícios e endereços virtuais de escritório, processando bilhões de dólares na blockchain enquanto continuam a apresentar documentos de “contas inativas” às autoridades. Essa estratégia de “ocultação ativa” permitiu que permanecessem por longo tempo sem despertar suspeitas na Companies House e na regulação financeira do Reino Unido. De forma irônica, após Zanjani sair de Zedxion em 2022, Zedcex foi imediatamente registrado com a mesma estrutura de controle e endereço, continuando suas operações, demonstrando uma clara intenção de evitar fiscalização.
Na camada intermediária, o stablecoin USDT, especialmente na versão emitida na blockchain TRON, é o principal meio de transferência de fundos. Segundo o relatório, quase toda a movimentação ocorre via USDT na rede TRON, devido à alta liquidez, baixo custo de transação e estabilidade de preço, tornando-se uma ferramenta ideal para transferências de grandes valores. Os fundos circulam entre endereços ligados à IRGC, intermediários offshore e exchanges iranianas como Nobitex, Wallex e Aban Tether, formando um sistema interno fechado, porém eficiente. A análise da TRM Labs conecta endereços de Zedcex a carteiras vinculadas à IRGC, conforme a ordem de apreensão ASO-43/25 emitida pelas autoridades israelenses em setembro de 2025, muitas dessas carteiras posteriormente sendo colocadas na lista negra do Tether.
No back-end, para conectar criptomoedas à economia real, o esquema integra o processador de pagamentos Zedpay na Turquia. Estabelecendo relações com instituições financeiras turcas, como a Vepara — que foi suspensa por lavagem de dinheiro — e o banco estatal islâmico Vakif Katilim, Zedpay oferece liquidação fiduciária e pagamentos no mundo real para entidades sancionadas. Essa integração amplia a função de uma simples plataforma de troca de criptomoedas para uma infraestrutura financeira capaz de suportar operações diárias, compras e até pagamento de salários de entidades sancionadas. A Turquia, devido à sua posição geográfica e ambiente regulatório, é há muito considerada um ponto-chave para atividades financeiras cinzentas, e este caso reforça essa percepção.
Dados-chave e modus operandi das transações relacionadas à IRGC na Zedcex
Volume total de transações: aproximadamente 10 bilhões de dólares relacionados à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.
Proporção de fluxo ilegal: cerca de 56 % do volume total, atingindo um pico de 87 % em 2024.
Fluxo anual de fundos:
2023: transações relacionadas à IRGC totalizaram 23,7 milhões de dólares, representando 60 % do total da plataforma.
2024: esse valor disparou para 619,1 milhões de dólares, com participação de 87 %.
2025: transações relacionadas à IRGC somaram 410,4 milhões de dólares, com a participação de IRGC caindo para 48 % devido ao aumento de fluxos não ligados.
Tecnologia principal: quase toda a movimentação ocorre usando USDT (Tether) na TRON.
Evidências de financiamento terrorista direto: mais de 1.000 milhão de dólares em USDT transferidos de carteiras vinculadas à Zedcex/IRGC para endereços associados a terroristas apoiando os houthis no Iêmen, sancionados pelos EUA.
Entrada e saída de moeda fiduciária: por meio da integração com o processador de pagamentos turco Zedpay, conectando-se ao sistema financeiro turco para liquidação fiduciária.
Quando 10 bilhões de dólares percorrem a cadeia: impacto triplo em USDT, regulação e reputação da indústria de criptomoedas
O caso Zedcex não é uma exceção isolada, mas uma ponta de iceberg de uma corrente mais poderosa. Segundo a Chainalysis, em 2025, o total de fundos recebidos por endereços ilegais de criptomoedas atingiu pelo menos 154 bilhões de dólares, um aumento de 162 % em relação a 2024, que foi de 59 bilhões. O motor principal desse crescimento explosivo é a atividade de entidades sancionadas, que em um ano expandiram seus fundos em 694 %. Esses números frios revelam uma realidade inescapável: atores estatais, especialmente aqueles excluídos do sistema financeiro tradicional como SWIFT, estão incorporando massivamente a infraestrutura de criptomoedas em suas estratégias financeiras nacionais, para manter a economia e a ação geopolítica. As criptomoedas, especialmente as stablecoins, evoluíram de ferramentas de entusiastas para instrumentos-chave na disputa geopolítica.
Essa tendência impõe sérios desafios à reputação e à conformidade das stablecoins, especialmente a maior do mercado, o USDT. Segundo o relatório, 84 % de todas as transações ilegais envolvem stablecoins, refletindo sua ampla adoção no setor legal, mas também tornando-as foco de fiscalização. O USDT, por sua alta eficiência na rede TRON e ampla penetração, aparece frequentemente nesses casos. Apesar de a Tether colaborar com autoridades, congelando dezenas de endereços ligados à IRGC, o método de “congelamento pós-fato” não resolve o problema de forma estrutural. Quando até 1 bilhão de dólares já foram transferidos e podem ser convertidos em ativos físicos, o congelamento de endereços é mais simbólico do que uma solução definitiva. Isso levanta debates internos e externos sobre a obrigação de “conheça seu cliente” e “prevenção à lavagem de dinheiro” por parte dos emissores de stablecoins, buscando equilibrar a abertura do blockchain com controles mais eficazes na origem dos fundos.
Para a indústria global de criptomoedas, esses casos aceleram a implementação de regulações mais rígidas. Servem de munição para reguladores nacionais avançarem na elaboração de leis mais severas. Casos como a tentativa do Irã de aceitar vendas de armas, drones e a emissão do token respaldado pelo rublo, o A7A5, que movimentou mais de 93,3 bilhões de dólares em um ano, aumentam a sensação de crise entre os órgãos reguladores ocidentais. O futuro da regulação pode focar em: 1) fortalecer a supervisão global de provedores de serviços de criptomoedas (exchanges, carteiras, processadores de pagamento), fechando brechas como o registro de empresas no Reino Unido; 2) exigir que blockchains públicas e emissores de stablecoins tenham maior monitoramento on-chain e obrigações de reporte proativo; 3) implementar de forma abrangente a “regra de viagem” (Travel Rule) no setor, permitindo rastrear beneficiários finais de transferências transjurisdicionais de grandes valores. A indústria inevitavelmente entrará em uma era de “conformidade rigorosa”, sacrificando parte de sua descentralização e privacidade, mas como condição para se integrar ao sistema financeiro mainstream.
Espiral tecnológica de sanções e contramedidas: o futuro da conformidade em criptomoedas
A revelação do caso Zedcex marca uma nova dimensão na batalha global de sanções e contrassanções, que agora envolve uma disputa tecnológica. Não se trata mais apenas de estratégias de bancos e investigadores em documentos físicos, mas de uma guerra de alta intensidade entre analistas de blockchain, desenvolvedores de contratos inteligentes, empresas de tecnologia regulatória e hackers apoiados por Estados, na camada de código e rede. Um lado constrói escudos financeiros usando a natureza global, pseudo-anônima e de liquidação final das criptomoedas; o outro desenvolve ferramentas cada vez mais sofisticadas de análise on-chain, clustering de endereços e monitoramento em tempo real, tentando penetrar esses escudos. Essa “guerra de gato e rato” está formando uma espiral tecnológica em constante evolução.
Nos próximos anos, o foco será em pontos-chave como: tecnologias de privacidade e combate à conformidade. Criptomoedas de privacidade como Monero e Zcash, ou redes Layer 2 com provas de conhecimento zero, oferecem maior anonimato. Reguladores investem em ferramentas capazes de quebrar ou contornar essas proteções, além de legislar para limitar o uso de moedas de privacidade em exchanges reguladas. Outro ponto são as pontes entre blockchains e mixers, que dificultam o rastreamento de fundos e podem ser obrigadas a incorporar verificações de identidade obrigatórias, sob pena de serem bloqueadas globalmente. Por fim, a entrada de ativos do mundo real, como ações e títulos, em protocolos DeFi, levanta o desafio de garantir que esses ativos não tenham origem sancionada, uma questão de alta complexidade regulatória.
Para empresas de criptomoedas, especialmente exchanges e emissores de stablecoins que desejam alcançar a mainstream, a única saída é desenvolver capacidades de “superconformidade” além dos padrões tradicionais de KYC e AML. Isso inclui montar equipes internas de inteligência on-chain, colaborar com empresas como TRM Labs e Chainalysis, monitorar padrões de fundos suspeitos em tempo real e criar canais rápidos de resposta às autoridades. Além disso, incorporar no design dos protocolos mecanismos de “conformidade por projeto”, como atualizações de contratos inteligentes para congelar ativos suspeitos após procedimentos legais, será uma tendência. Embora isso vá contra o princípio de “código é lei”, pode ser uma estratégia pragmática para a sobrevivência no cenário político atual. A grande contradição do universo cripto talvez seja que, para superar o sistema financeiro centralizado, primeiro precisa aprender a operar dentro das regras que ele impõe, demonstrando maior eficiência e transparência.
Análise aprofundada: o que é a TRM Labs?
Na investigação do caso de 1 bilhão de dólares em sanções evitadas, a TRM Labs desempenha papel central. É uma líder global em inteligência de blockchain, fornecendo soluções tecnológicas para conformidade e monitoramento de riscos para governos, instituições financeiras e empresas de criptomoedas. Em essência, a TRM Labs é uma espécie de “detetive digital” do universo cripto, que analisa dados públicos de blockchain para identificar atividades financeiras ilegais, como lavagem de dinheiro, fraudes, financiamento ao terrorismo e evasão de sanções.
Capacidades e operações da TRM Labs: a empresa possui uma plataforma proprietária de análise on-chain capaz de monitorar, agrupar e visualizar em tempo real milhões de transações em dezenas de blockchains. Seu diferencial está na “clusterização de endereços” e na análise comportamental — rastreando fluxos de fundos, identificando padrões de transação e relacionando endereços a entidades conhecidas (exchanges, mixers, carteiras de criminosos). Essa tecnologia permitiu, na investigação do caso iraniano, conectar endereços de Zedcex aos endereços designados pelas autoridades israelenses, incluindo os ligados à IRGC, formando uma cadeia de evidências irrefutável.
Papel na indústria e parcerias: a TRM Labs atende agências de investigação como o IRS dos EUA, a FCA do Reino Unido e diversas exchanges e fintechs. Sua colaboração com a Tether, por exemplo, ajuda a monitorar o uso ilícito de USDT na rede TRON. Sua presença simboliza a transição do setor de criptomoedas de um ambiente de “livre por todos” para uma estrutura mais regulada e responsável, sendo uma peça fundamental na construção de uma infraestrutura de conformidade que sustenta a maturidade do mercado.
Panorama histórico: uso de criptomoedas por países sancionados
Para entender por que países como Irã e Rússia dependem tanto de criptomoedas, é importante revisitar sua evolução nos últimos anos. Essa trajetória pode ser dividida em três fases principais, desde a exploração passiva até a implementação sistemática.
Primeira fase: autoexploração e uso inicial (2017-2019). Nessa etapa, o uso de criptomoedas nesses países era majoritariamente espontâneo, impulsionado por cidadãos e comerciantes que utilizavam Bitcoin para remessas internacionais e proteção contra inflação. Em 2018, o Irã anunciou uma tentativa de lançar uma moeda digital estatal, mas com impacto limitado. O foco era mais de ferramenta de substituição do dinheiro tradicional e de evasão de controles.
Segunda fase: aceitação oficial e crescimento de stablecoins (2020-2022). Com o endurecimento das sanções, especialmente após excluir bancos iranianos do SWIFT, os governos passaram a reconhecer o potencial das criptomoedas. Stablecoins como USDT se tornaram instrumentos de comércio internacional, especialmente para exportação de petróleo e minerais. Casos de empresas venezuelanas aceitando USDT para pagamento de petróleo também se multiplicaram. Organizações como hackers norte-coreanos intensificaram roubos de exchanges para obter divisas, consolidando o uso de criptomoedas na economia paralela do regime. Essa fase foi marcada por “aceitação tácita” e “uso de stablecoins”, formando uma rede de transações não oficial.
Terceira fase: construção de sistemas e regulação (2023 até hoje). Atualmente, países sancionados avançam na criação de infraestruturas próprias, como o desenvolvimento de moedas digitais estatais (CBDCs), e exploram a integração de criptomoedas em suas estratégias econômicas. Rússia, por exemplo, promove seu rublo digital, enquanto o Irã discute sistemas de pagamento baseados em blockchain para facilitar o comércio com parceiros. A utilização de plataformas de registro de empresas no exterior, como no Reino Unido, e a construção de rotas de pagamento via terceiros, exemplificam essa fase de sistematização. Paralelamente, os reguladores ocidentais intensificam ações de bloqueio, apreensão e fiscalização, buscando conter o uso ilícito de criptomoedas. O caso Zedcex é um exemplo dessa batalha, refletindo a complexidade e a escala do conflito de interesses entre sanções e contramedidas.
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A bolsa de criptomoedas do Reino Unido torna-se escudo financeiro do Irã? Caso de lavagem de dinheiro de 1 mil milhões de dólares choca o mundo
A empresa de inteligência em blockchain TRM Labs revelou em seu último relatório que duas exchanges de criptomoedas registradas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion, processaram entre 2021 e 2025 transações de até aproximadamente 1 bilhão de dólares relacionadas com a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, das quais o fluxo de fundos ilegais chegou a representar até 87 % do volume total de transações.
A investigação mostrou que essas exchanges, por meio de estruturas complexas de empresas de fachada, endereços virtuais de escritório e integração com gateways de pagamento na Turquia, construíram uma rota financeira secreta eficiente para evitar sanções internacionais, chegando a financiar diretamente organizações terroristas sancionadas pelos EUA. Este caso evidencia como entidades de países sancionados estão cada vez mais dominando o cenário do crime cibernético em criptomoedas, com o montante de atividades ilegais crescendo 694 % em 2025, atingindo 154 bilhões de dólares, sendo 84 % realizados em stablecoins (principalmente USDT), sem dúvida um alerta severo para reguladores globais e para a conformidade na indústria de criptomoedas.
Rota secreta de 1 bilhão de dólares: como exchanges registradas no Reino Unido se tornaram o “Escudo Financeiro” do Irã
Uma rede financeira complexa que atravessa o Reino Unido, Oriente Médio e Turquia começou a se revelar sob a investigação de empresas de inteligência em blockchain. Segundo um relatório aprofundado da TRM Labs divulgado em 9 de janeiro, duas exchanges de criptomoedas aparentemente comuns, Zedcex e Zedxion, registradas no Reino Unido, desempenharam, ao longo de vários anos, um papel central como hubs de financiamento externo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã. Estima-se que, do total de transações processadas por essas plataformas, cerca de 10 bilhões de dólares possam ser rastreados até a organização militar sancionada, com atividades ilegais atingindo um pico de 87 % em 2024. Este caso não só envolve valores elevados, mas também por sua sofisticada disfarce corporativo e conexão com o sistema financeiro global, tornando-se um dos exemplos mais emblemáticos de evasão de sanções nacionais via criptomoedas.
Ao aprofundar na origem dessas exchanges, uma fachada empresarial cuidadosamente elaborada foi revelada. Apesar de terem sido registradas em 2021 e 2022 no Reino Unido, investigações indicam que operam como uma única entidade. Compartilham diretores, usam o mesmo endereço virtual de escritório e demonstram alta coordenação operacional, apontando para uma estrutura de comando unificada. Crucialmente, registros apontam que Zedcex está ligado a Babak Morteza Zanjani, um sancionado iraniano que, desde 2013, foi alvo de sanções dos EUA e UE por lavagem de bilhões de dólares em receitas de petróleo em nome de entidades do regime iraniano, incluindo a IRGC. Apesar de ter sido condenado à morte por apropriação de ativos estatais no Irã, sua pena foi reduzida após pagamento de dívida em 2024, e ele voltou a atuar por meio do grupo DotOne Holding Group, que atua no setor de criptomoedas, câmbio e logística, mantendo uma relação ambígua com o regime.
A escala e a evolução do fluxo de fundos revelam o ciclo de atividade dessa rota. Dados indicam que o volume de transações envolvendo endereços ligados à IRGC na Zedcex saltou de 23,7 milhões de dólares em 2023 (60 % do total da plataforma) para 619,1 milhões de dólares em 2024 (87 %). Este aumento pode estar relacionado ao aumento da pressão de sanções internacionais e ao aperto nos canais financeiros tradicionais. Em 2025, embora o volume total ainda seja de 410,4 milhões de dólares, o fluxo de fundos não ligados à IRGC aumentou, reduzindo a proporção para 48 %. Essas oscilações podem refletir pressões de investigação, ajustes de risco pelas plataformas ou mudanças na estratégia de alocação de fundos pelo Irã. De qualquer forma, o fluxo de até 10 bilhões de dólares por meio dessas contas aparentemente “inativas” no Reino Unido expõe vulnerabilidades no sistema global de registro de empresas e na regulação financeira frente a entidades criptográficas.
Empresas de fachada e gateway de pagamento na Turquia: análise do modelo de “finanças híbridas” para evasão de sanções
A continuidade e escala desse esquema dependem de uma estrutura que combina disfarces tradicionais de empresas, pagamentos anônimos via blockchain e entrada de moeda fiduciária, formando um modelo de “finanças híbridas”. Este não se limita à simples utilização do anonimato das criptomoedas, mas integra sistematicamente vulnerabilidades de múltiplas jurisdições, criando uma cadeia de valor completa que conecta entidades sancionadas a bens e serviços no mundo real. Sua lógica operacional pode ser dividida em três camadas: disfarce de front-end, ponte de stablecoins e liquidação de moeda fiduciária no back-end, cada uma visando dificultar rastreamento e evitar fiscalização.
Na camada frontal, Zedcex e Zedxion aproveitam a flexibilidade (e possíveis brechas) do sistema de registro de empresas do Reino Unido. Utilizam diretores fictícios e endereços virtuais de escritório, processando bilhões de dólares na blockchain enquanto continuam a apresentar documentos de “contas inativas” às autoridades. Essa estratégia de “ocultação ativa” permitiu que permanecessem por longo tempo sem despertar suspeitas na Companies House e na regulação financeira do Reino Unido. De forma irônica, após Zanjani sair de Zedxion em 2022, Zedcex foi imediatamente registrado com a mesma estrutura de controle e endereço, continuando suas operações, demonstrando uma clara intenção de evitar fiscalização.
Na camada intermediária, o stablecoin USDT, especialmente na versão emitida na blockchain TRON, é o principal meio de transferência de fundos. Segundo o relatório, quase toda a movimentação ocorre via USDT na rede TRON, devido à alta liquidez, baixo custo de transação e estabilidade de preço, tornando-se uma ferramenta ideal para transferências de grandes valores. Os fundos circulam entre endereços ligados à IRGC, intermediários offshore e exchanges iranianas como Nobitex, Wallex e Aban Tether, formando um sistema interno fechado, porém eficiente. A análise da TRM Labs conecta endereços de Zedcex a carteiras vinculadas à IRGC, conforme a ordem de apreensão ASO-43/25 emitida pelas autoridades israelenses em setembro de 2025, muitas dessas carteiras posteriormente sendo colocadas na lista negra do Tether.
No back-end, para conectar criptomoedas à economia real, o esquema integra o processador de pagamentos Zedpay na Turquia. Estabelecendo relações com instituições financeiras turcas, como a Vepara — que foi suspensa por lavagem de dinheiro — e o banco estatal islâmico Vakif Katilim, Zedpay oferece liquidação fiduciária e pagamentos no mundo real para entidades sancionadas. Essa integração amplia a função de uma simples plataforma de troca de criptomoedas para uma infraestrutura financeira capaz de suportar operações diárias, compras e até pagamento de salários de entidades sancionadas. A Turquia, devido à sua posição geográfica e ambiente regulatório, é há muito considerada um ponto-chave para atividades financeiras cinzentas, e este caso reforça essa percepção.
Dados-chave e modus operandi das transações relacionadas à IRGC na Zedcex
Volume total de transações: aproximadamente 10 bilhões de dólares relacionados à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã.
Proporção de fluxo ilegal: cerca de 56 % do volume total, atingindo um pico de 87 % em 2024.
Fluxo anual de fundos:
Tecnologia principal: quase toda a movimentação ocorre usando USDT (Tether) na TRON.
Evidências de financiamento terrorista direto: mais de 1.000 milhão de dólares em USDT transferidos de carteiras vinculadas à Zedcex/IRGC para endereços associados a terroristas apoiando os houthis no Iêmen, sancionados pelos EUA.
Entrada e saída de moeda fiduciária: por meio da integração com o processador de pagamentos turco Zedpay, conectando-se ao sistema financeiro turco para liquidação fiduciária.
Quando 10 bilhões de dólares percorrem a cadeia: impacto triplo em USDT, regulação e reputação da indústria de criptomoedas
O caso Zedcex não é uma exceção isolada, mas uma ponta de iceberg de uma corrente mais poderosa. Segundo a Chainalysis, em 2025, o total de fundos recebidos por endereços ilegais de criptomoedas atingiu pelo menos 154 bilhões de dólares, um aumento de 162 % em relação a 2024, que foi de 59 bilhões. O motor principal desse crescimento explosivo é a atividade de entidades sancionadas, que em um ano expandiram seus fundos em 694 %. Esses números frios revelam uma realidade inescapável: atores estatais, especialmente aqueles excluídos do sistema financeiro tradicional como SWIFT, estão incorporando massivamente a infraestrutura de criptomoedas em suas estratégias financeiras nacionais, para manter a economia e a ação geopolítica. As criptomoedas, especialmente as stablecoins, evoluíram de ferramentas de entusiastas para instrumentos-chave na disputa geopolítica.
Essa tendência impõe sérios desafios à reputação e à conformidade das stablecoins, especialmente a maior do mercado, o USDT. Segundo o relatório, 84 % de todas as transações ilegais envolvem stablecoins, refletindo sua ampla adoção no setor legal, mas também tornando-as foco de fiscalização. O USDT, por sua alta eficiência na rede TRON e ampla penetração, aparece frequentemente nesses casos. Apesar de a Tether colaborar com autoridades, congelando dezenas de endereços ligados à IRGC, o método de “congelamento pós-fato” não resolve o problema de forma estrutural. Quando até 1 bilhão de dólares já foram transferidos e podem ser convertidos em ativos físicos, o congelamento de endereços é mais simbólico do que uma solução definitiva. Isso levanta debates internos e externos sobre a obrigação de “conheça seu cliente” e “prevenção à lavagem de dinheiro” por parte dos emissores de stablecoins, buscando equilibrar a abertura do blockchain com controles mais eficazes na origem dos fundos.
Para a indústria global de criptomoedas, esses casos aceleram a implementação de regulações mais rígidas. Servem de munição para reguladores nacionais avançarem na elaboração de leis mais severas. Casos como a tentativa do Irã de aceitar vendas de armas, drones e a emissão do token respaldado pelo rublo, o A7A5, que movimentou mais de 93,3 bilhões de dólares em um ano, aumentam a sensação de crise entre os órgãos reguladores ocidentais. O futuro da regulação pode focar em: 1) fortalecer a supervisão global de provedores de serviços de criptomoedas (exchanges, carteiras, processadores de pagamento), fechando brechas como o registro de empresas no Reino Unido; 2) exigir que blockchains públicas e emissores de stablecoins tenham maior monitoramento on-chain e obrigações de reporte proativo; 3) implementar de forma abrangente a “regra de viagem” (Travel Rule) no setor, permitindo rastrear beneficiários finais de transferências transjurisdicionais de grandes valores. A indústria inevitavelmente entrará em uma era de “conformidade rigorosa”, sacrificando parte de sua descentralização e privacidade, mas como condição para se integrar ao sistema financeiro mainstream.
Espiral tecnológica de sanções e contramedidas: o futuro da conformidade em criptomoedas
A revelação do caso Zedcex marca uma nova dimensão na batalha global de sanções e contrassanções, que agora envolve uma disputa tecnológica. Não se trata mais apenas de estratégias de bancos e investigadores em documentos físicos, mas de uma guerra de alta intensidade entre analistas de blockchain, desenvolvedores de contratos inteligentes, empresas de tecnologia regulatória e hackers apoiados por Estados, na camada de código e rede. Um lado constrói escudos financeiros usando a natureza global, pseudo-anônima e de liquidação final das criptomoedas; o outro desenvolve ferramentas cada vez mais sofisticadas de análise on-chain, clustering de endereços e monitoramento em tempo real, tentando penetrar esses escudos. Essa “guerra de gato e rato” está formando uma espiral tecnológica em constante evolução.
Nos próximos anos, o foco será em pontos-chave como: tecnologias de privacidade e combate à conformidade. Criptomoedas de privacidade como Monero e Zcash, ou redes Layer 2 com provas de conhecimento zero, oferecem maior anonimato. Reguladores investem em ferramentas capazes de quebrar ou contornar essas proteções, além de legislar para limitar o uso de moedas de privacidade em exchanges reguladas. Outro ponto são as pontes entre blockchains e mixers, que dificultam o rastreamento de fundos e podem ser obrigadas a incorporar verificações de identidade obrigatórias, sob pena de serem bloqueadas globalmente. Por fim, a entrada de ativos do mundo real, como ações e títulos, em protocolos DeFi, levanta o desafio de garantir que esses ativos não tenham origem sancionada, uma questão de alta complexidade regulatória.
Para empresas de criptomoedas, especialmente exchanges e emissores de stablecoins que desejam alcançar a mainstream, a única saída é desenvolver capacidades de “superconformidade” além dos padrões tradicionais de KYC e AML. Isso inclui montar equipes internas de inteligência on-chain, colaborar com empresas como TRM Labs e Chainalysis, monitorar padrões de fundos suspeitos em tempo real e criar canais rápidos de resposta às autoridades. Além disso, incorporar no design dos protocolos mecanismos de “conformidade por projeto”, como atualizações de contratos inteligentes para congelar ativos suspeitos após procedimentos legais, será uma tendência. Embora isso vá contra o princípio de “código é lei”, pode ser uma estratégia pragmática para a sobrevivência no cenário político atual. A grande contradição do universo cripto talvez seja que, para superar o sistema financeiro centralizado, primeiro precisa aprender a operar dentro das regras que ele impõe, demonstrando maior eficiência e transparência.
Análise aprofundada: o que é a TRM Labs?
Na investigação do caso de 1 bilhão de dólares em sanções evitadas, a TRM Labs desempenha papel central. É uma líder global em inteligência de blockchain, fornecendo soluções tecnológicas para conformidade e monitoramento de riscos para governos, instituições financeiras e empresas de criptomoedas. Em essência, a TRM Labs é uma espécie de “detetive digital” do universo cripto, que analisa dados públicos de blockchain para identificar atividades financeiras ilegais, como lavagem de dinheiro, fraudes, financiamento ao terrorismo e evasão de sanções.
Capacidades e operações da TRM Labs: a empresa possui uma plataforma proprietária de análise on-chain capaz de monitorar, agrupar e visualizar em tempo real milhões de transações em dezenas de blockchains. Seu diferencial está na “clusterização de endereços” e na análise comportamental — rastreando fluxos de fundos, identificando padrões de transação e relacionando endereços a entidades conhecidas (exchanges, mixers, carteiras de criminosos). Essa tecnologia permitiu, na investigação do caso iraniano, conectar endereços de Zedcex aos endereços designados pelas autoridades israelenses, incluindo os ligados à IRGC, formando uma cadeia de evidências irrefutável.
Papel na indústria e parcerias: a TRM Labs atende agências de investigação como o IRS dos EUA, a FCA do Reino Unido e diversas exchanges e fintechs. Sua colaboração com a Tether, por exemplo, ajuda a monitorar o uso ilícito de USDT na rede TRON. Sua presença simboliza a transição do setor de criptomoedas de um ambiente de “livre por todos” para uma estrutura mais regulada e responsável, sendo uma peça fundamental na construção de uma infraestrutura de conformidade que sustenta a maturidade do mercado.
Panorama histórico: uso de criptomoedas por países sancionados
Para entender por que países como Irã e Rússia dependem tanto de criptomoedas, é importante revisitar sua evolução nos últimos anos. Essa trajetória pode ser dividida em três fases principais, desde a exploração passiva até a implementação sistemática.
Primeira fase: autoexploração e uso inicial (2017-2019). Nessa etapa, o uso de criptomoedas nesses países era majoritariamente espontâneo, impulsionado por cidadãos e comerciantes que utilizavam Bitcoin para remessas internacionais e proteção contra inflação. Em 2018, o Irã anunciou uma tentativa de lançar uma moeda digital estatal, mas com impacto limitado. O foco era mais de ferramenta de substituição do dinheiro tradicional e de evasão de controles.
Segunda fase: aceitação oficial e crescimento de stablecoins (2020-2022). Com o endurecimento das sanções, especialmente após excluir bancos iranianos do SWIFT, os governos passaram a reconhecer o potencial das criptomoedas. Stablecoins como USDT se tornaram instrumentos de comércio internacional, especialmente para exportação de petróleo e minerais. Casos de empresas venezuelanas aceitando USDT para pagamento de petróleo também se multiplicaram. Organizações como hackers norte-coreanos intensificaram roubos de exchanges para obter divisas, consolidando o uso de criptomoedas na economia paralela do regime. Essa fase foi marcada por “aceitação tácita” e “uso de stablecoins”, formando uma rede de transações não oficial.
Terceira fase: construção de sistemas e regulação (2023 até hoje). Atualmente, países sancionados avançam na criação de infraestruturas próprias, como o desenvolvimento de moedas digitais estatais (CBDCs), e exploram a integração de criptomoedas em suas estratégias econômicas. Rússia, por exemplo, promove seu rublo digital, enquanto o Irã discute sistemas de pagamento baseados em blockchain para facilitar o comércio com parceiros. A utilização de plataformas de registro de empresas no exterior, como no Reino Unido, e a construção de rotas de pagamento via terceiros, exemplificam essa fase de sistematização. Paralelamente, os reguladores ocidentais intensificam ações de bloqueio, apreensão e fiscalização, buscando conter o uso ilícito de criptomoedas. O caso Zedcex é um exemplo dessa batalha, refletindo a complexidade e a escala do conflito de interesses entre sanções e contramedidas.