A essência da securitização tokenizada não reside na inovação da interface de negociação, mas sim na atualização do registro e transferência de direitos financeiros para um estado compartilhado, verificável e programável. Este artigo analisa, a partir de princípios fundamentais, os quatro modelos de tokenização de securities, o quadro de análise de três camadas, e como melhorar a eficiência de liquidação e gestão de garantias.
(Preâmbulo: Relatório de pesquisa de RWA de dez mil palavras: a primeira onda de tokenização já chegou)
(Complemento de contexto: Por que o ERC-3643 é o padrão de token mais adequado para RWA?)
Índice deste artigo
Partindo de princípios fundamentais, a essência de um security não é apenas um código ou um número em uma conta, mas um conjunto de direitos que podem ser executados por tribunais e reguladores:
Direitos de propriedade, de rendimento, de voto, de resgate, proteção de ativos do cliente em caso de falência, procedimentos em caso de inadimplência do contrapartida, além de mecanismos de segregação e transferência de ativos sob o quadro de proteção ao investidor.
Portanto, a digitalização de securities na blockchain não é simplesmente trocar a interface de negociação por uma carteira ou bolsa na blockchain, mas reengenheirar quatro aspectos abaixo usando tecnologia blockchain, para melhorar a eficiência de circulação, liquidação e compensação:
De onde vêm os direitos: o detentor do token é reconhecido por lei como acionista ou beneficiário?
Quem é responsável pelo registro: quem é o responsável pelo livro de registros oficial ou sistema equivalente?
Quando a transferência é definitiva: onde ocorre a finalização da entrega, ela pode ser revogada, e como são resolvidas disputas?
Quem assume a responsabilidade em caso de problemas: quais são os limites de obrigação de corretoras, custodiantes, agentes de transferência e clearinghouses?
Antes de analisar formalmente a tokenização de securities, é necessário classificar e definir esse conceito amplo de forma rigorosa. Sem uma definição e classificação unificadas, falta um quadro de discussão consistente. Assim, com base nas práticas de mercado mais recentes, a tokenização de securities pode ser dividida em quatro tipos, com grau de conformidade de menor a maior:
Este caminho foi o primeiro a se escalar, com maior conformidade. Exemplos típicos incluem fundos de mercado monetário tokenizados e fundos do Tesouro tokenizados na blockchain. Vantagens: estrutura de direitos simples, avaliação transparente, poucas ações corporativas, regulação controlável.
Casos típicos:
BlackRock lançou, via Securitize, o produto BUIDL em 20 de março de 2024
J.P. Morgan Asset Management lançou, em 15 de dezembro de 2025, o fundo de mercado monetário tokenizado MONY na blockchain Ethereum
Este tipo de tokens é emitido, registrado e transferido inteiramente na blockchain.
Teoricamente, é o mais puro, mas exige regras rígidas de regulação, agentes de transferência e estrutura de mercado secundário, o que atualmente impede avanços rápidos. Ainda não há produtos ou práticas maduras.
Plataformas de terceiros colaboram com corretoras tradicionais de ações americanas, usando posições físicas de ações como base, e em cima disso emitem tokens, similar a ADR, mas com estrutura mais complexa.
Exemplos incluem projetos DeFi na blockchain como Satblestock, que obtêm exposição às ações americanas por meio de parcerias com corretoras tradicionais, e realizam ancoragem por meio de cunhagem e queima sincronizadas, além de oferecer plataformas de negociação.
Para esses instrumentos de investimento em ações americanas na blockchain, um ponto central é que a exposição on-chain não equivale ao próprio security. Isso aumenta o risco de contraparte para investidores, e a definição e limites regulatórios são sensíveis, como nos produtos de contratos perpétuos de ações americanas desenvolvidos pelo protocolo Hyperliquid, por exemplo.
Ao analisar esses quatro modelos de produtos de tokenização de ações e suas arquiteturas, podemos abstrair um modelo de três camadas para análise de securities tokenizados:
O token representa direitos sob a lei de securities?
Os direitos do investidor podem ser executados na justiça ou sob o quadro regulatório?
Ele se enquadra nas obrigações existentes de corretoras, bolsas, clearinghouses, agentes de transferência?
Um ponto-chave aqui é: securities tokenizados continuam sendo securities, a tecnologia não altera a natureza do ativo subjacente. A membro da SEC, Hester Peirce, enfatizou em 2025 que blockchain não muda a propriedade do ativo subjacente, e tokens patrocinados por terceiros podem apenas oferecer exposição sintética, sem direitos de acionista. Detalharemos mais adiante a questão regulatória.
Quem mantém o livro aberto ou um livro equivalente reconhecido?
O token é equivalente e intercambiável com uma ação tradicional? (fungível)
A SIFMA, ao enviar materiais à SEC no final de 2025, afirmou de forma clara: tokens de mesma classe de ações tokenizadas e não tokenizadas devem ser legal e economicamente intercambiáveis, caso contrário, podem gerar fragmentação de mercado, divergência de preços e enfraquecimento da proteção ao investidor.
O token representa: propriedade de ações, direitos de rendimento, ou apenas exposição ao preço?
Existem mecanismos de resgate ou conversão? Quem é o objeto do resgate? Quais as condições?
Como mencionado anteriormente, exposição ao preço ≠ propriedade do security; poder comprar a um preço não equivale a possuir direitos econômicos, e a natureza da camada econômica determina riscos regulatórios, risco de contraparte e a possibilidade de entrada em pools de capital mainstream.
Após entender a lógica principal dos produtos e o quadro de análise, este artigo e uma série de textos subsequentes focarão em produtos de securities tokenizados, altamente conformes, baseados em frameworks tradicionais de finanças, e suas rotas de emissão, ao invés de produtos ou plataformas DeFi não conformes na blockchain.
Resumindo em uma frase ——
O valor fundamental da securitização tokenizada é transformar o registro e a transferência de direitos financeiros em um estado compartilhado, verificável e programável na blockchain, elevando significativamente a eficiência de liquidação e garantias, reduzindo fricções de reconciliação e conformidade, e dotando ativos tradicionais de capacidades nativas de composição e automação na cadeia.
Resumo central:
A tokenização transforma operações complexas e custosas de backend em regras front-end transparentes e consistentes.
Problemas tradicionais:
No mercado tradicional, uma mesma transação de securities deixa registros em múltiplos sistemas: bolsas ATS, livros de corretoras, custódias, agentes de transferência, sistemas de reporte regulatório…
Ela funciona graças a um sistema de integração detalhado: transmissão de mensagens + reconciliação + tratamento de erros + responsabilização legal.
Custos associados:
Custos operacionais: reconciliação, correções, falhas na entrega, ações corporativas dependentes de trabalho manual e processos em lote.
Custos de tempo: a liquidação não é uma operação única, mas um ciclo que precisa ser confirmado para ser finalizado.
Solução da tokenização:
Criar um estado de livro compartilhado, acessível e verificável por múltiplas partes, que registre quem detém, se há congelamento, se há garantias, como os saldos mudam após ações corporativas, e codificar regras de transferência como lógica auditável.
Valor direto:
Reduzir custos de reconciliação e erros: passar de um sistema de reconciliação confiável baseado em processos manuais para um sistema confiável baseado em estado compartilhado na blockchain.
Diminuir custos de falhas na liquidação e resolução de disputas: tratar o pós-negociação como uma restrição durante o processo, não apenas após.
Resumo central:
A essência da tokenização não é apenas acelerar as negociações, mas acelerar e granularizar a programação de dinheiro e garantias.
Problemas tradicionais:
Um equívoco comum é pensar que T+1/T+2 é apenas uma consequência de tecnologia lenta. Na verdade, é um compromisso do mercado financeiro tradicional: liquidação líquida economiza liquidez, mas introduz ciclos de liquidação, risco de contraparte e sistemas complexos de margem.
O problema central do mercado tradicional não é lentidão, mas:
Solução da tokenização:
Colocar valores mobiliários e dinheiro ou ativos de liquidação na mesma lógica programável, possibilitando liquidação quase em tempo real e gestão de garantias mais rápida.
Valor direto:
Resumo central:
A tokenização permite transformar conformidade de uma verificação posterior em regras automáticas e executáveis antes da transferência.
Problemas tradicionais:
Na prática, conformidade no mercado tradicional é uma combinação de processos + registros + auditorias + responsabilizações: KYC, adequação do investidor, restrições de transferência, concentração de posições, listas de sanções, congelamentos, assistência judicial… Muitas dessas exigências são de natureza retroativa, e nem sempre podem ser prevenidas antecipadamente.
Solução da tokenização:
Implementar regras de conformidade como restrições rígidas na camada de ativos ou na camada de transferência:
Valor direto:
Este é o valor mais valorizado no mundo cripto, e que a finança tradicional também pode adotar progressivamente: a capacidade de composição (composability).
Problemas tradicionais:
A baixa capacidade de composição de ativos tradicionais não se deve à falta de padronização, mas à interface inconsistente, permissões não padronizadas e processos de liquidação não integrados. Para combinar ações + margem + empréstimos + opções em uma estratégia automatizada, é necessário cruzar múltiplas instituições, sistemas e janelas de tempo.
Solução da tokenização:
Valor direto:
Aumentar a capacidade de composição acelera a inovação financeira.
A distribuição de ativos de cauda longa fica mais fácil: interfaces padronizadas reduzem custos de integração entre emissores e canais.
Por fim, após entender os valores potenciais da tokenização de securities e os problemas que resolve, é importante também compreender o que ela não resolve, e onde estão seus limites.
Primeiro, a tokenização não garante isenção regulatória automática; securities continuam sendo securities, e os pontos de responsabilidade devem existir.
Segundo, a tokenização não gera liquidez automaticamente; liquidação atômica pode reduzir risco de contraparte, mas também pode sacrificar a liquidez de liquidação líquida.
Por fim, a tokenização não elimina intermediários de forma definitiva: eles passarão de apenas registrar e reconciliar para assumir responsabilidades regulatórias, controle de chaves, gestão de risco e proteção ao cliente.