Como os movimentos do mercado de ações e os preços do gás se moveram juntos antes da COVID-19

A relação entre os mercados de ações e os preços da gasolina tem intrigado há muito tempo investidores, analistas de políticas e consumidores. Esta questão—como os mercados de ações influenciam os preços do gás—adquire uma importância especial ao analisar a era pré-COVID, quando os mercados financeiros operavam sob condições bastante diferentes das de hoje. Compreender os preços da gasolina antes do COVID fornece um contexto crucial para reconhecer como choques de procura sem precedentes podem remodelar as ligações habituais entre os mercados financeiros e os custos de combustível para o consumidor.

Definição das Variáveis-Chave

Para explorar como os movimentos do mercado de ações afetaram os preços da gasolina no período pré-COVID, é essencial clarificar a terminologia:

  • Mercado de ações: Índices de ações negociados publicamente, incluindo o S&P 500 e medidas setoriais que refletem o sentimento dos investidores e as condições financeiras
  • Preços do petróleo bruto: Grades de referência a grosso (WTI, Brent) negociadas em mercados de futuros e spot; o principal input para a produção de gasolina
  • Preços de gasolina no retalho (bomba): Preços ao consumidor nas estações de serviço, combinando custos do petróleo bruto, margens de refinação, impostos, distribuição e fatores regionais
  • Correlação vs. causalidade: A distinção crucial de que movimentos simultâneos nos preços do gás e nos índices de ações muitas vezes refletem fatores económicos comuns, e não ligações causais diretas

O Ambiente de Mercado Pré-COVID: Condições de Referência

Antes que a pandemia de 2020 perturbasse os mercados globais, os preços da gasolina e os mercados de ações exibiam padrões reconhecíveis impulsionados por fatores macroeconómicos convencionais. De 2015 até início de 2020, a relação entre ações e petróleo era largamente moldada por expectativas de procura sincronizadas. Quando as previsões de crescimento melhoravam, tanto as ações quanto o petróleo geralmente subiam. Quando surgiam receios de recessão, ambos os mercados vendiam-se. Este comportamento sincronizado criava uma ligação aparente, mas mascarava a verdade subjacente: ambos respondiam às mesmas notícias económicas, e não um causava o outro.

Durante este período, a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) documentou que os preços da gasolina no retalho permaneciam principalmente ancorados aos custos do petróleo bruto (cerca de 50-65% do preço na bomba), enquanto as margens de refinação, misturas sazonais e fatores regionais desempenhavam papéis de suporte. As avaliações das ações das empresas de energia seguiam as tendências do preço do petróleo, reforçando a ligação visível entre os índices de ações amplos e os preços na bomba—embora isso também refletisse condições macroeconómicas partilhadas, e não uma causalidade direta.

Principais Canais de Transmissão Antes do COVID

Choques de Procura e Movimento Sincronizado

A explicação mais direta para a correlação observada entre os preços das ações e do gás durante os anos pré-COVID foi a influência de fatores macroeconómicos comuns. As expectativas de crescimento de grandes economias, relatórios de produção industrial e confiança do consumidor influenciavam ambos os ativos simultaneamente. Análises do Brookings Institution enfatizaram que, quando os investidores rebaixavam as previsões de crescimento global, as vendas de ações e as quedas nos preços do petróleo ocorriam em paralelo—não porque as ações causassem a queda do petróleo, mas porque ambos reagiam ao mesmo sinal negativo.

Sentimento do Mercado Financeiro e Efeitos de Liquidez

Ciclos de risco-on e risco-off eram relevantes para movimentos de preços de curto prazo. Correções no mercado de ações desencadeavam reequilíbrios de carteira de ativos mais arriscados para dinheiro ou obrigações, o que podia reduzir posições especulativas em futuros de commodities. Durante episódios de stress financeiro (embora geralmente menores do que após 2008), esses mecanismos de repricing impulsionados por liquidez causavam fraqueza temporária nos preços das commodities. Contudo, tais efeitos eram geralmente transitórios no ambiente pré-COVID, dissipando-se assim que a correção do mercado de ações se estabilizava.

Financialização de Commodities e Fluxos de ETFs

A proliferação de ETFs de commodities, fundos indexados e veículos de gestão de dinheiro criou ligações financeiras diretas entre os mercados de ações e os futuros de petróleo/gasolina. Grandes fluxos de fundos durante turbulências no mercado de ações podiam, mecanicamente, pressionar para baixo os preços futuros do petróleo a curto prazo. Os traders que monitorizavam sinais de ações e dados macroeconómicos ajustavam continuamente as suas apostas no mercado de commodities, fazendo com que a questão de se os mercados de ações afetavam os preços do gás frequentemente recebesse respostas “sim” a curto prazo—embora através de fluxos de negociação e posicionamento, e não de causalidade fundamental.

Feedback do Setor de Energia

As ações de empresas de energia formavam uma ponte visível ligando os mercados de petróleo bruto e os índices de ações amplos. A queda do petróleo reduzia as receitas de produtores e empresas de serviços petrolíferos, enfraquecendo as suas avaliações de ações. Por outro lado, vendas em ações de energia podiam sinalizar preocupações do mercado sobre a procura futura, influenciando as expectativas de preço do petróleo. Este ciclo de feedback era pronunciado nos anos pré-COVID, quando o setor de energia permanecia uma componente significativa do S&P 500, embora também operasse principalmente através de canais fundamentais, e não de uma causalidade direta dos índices amplos para os preços na bomba.

Episódios Históricos: Dinâmicas de Mercado Pré-COVID

Queda do Preço do Petróleo 2014-2016 e Divergência de Mercado

Um dos exemplos mais claros de separação do mercado de ações dos movimentos de preços do gás durante o período pré-COVID ocorreu entre 2014 e 2016. Uma queda dramática de 70% nos preços do petróleo foi impulsionada principalmente por fatores de oferta—um aumento na produção de xisto nos EUA e a recusa da OPEP em cortar a produção—não por fraqueza do mercado de ações. Enquanto os índices globais de ações reagiam a este choque, as dinâmicas variavam fortemente por setor. As ações de energia sofreram severamente, enquanto os setores de transporte e consumo discricionário beneficiaram-se de custos de combustível mais baixos. Este episódio demonstrou que os preços do gás podiam mover-se de forma independente do desempenho geral do mercado quando fatores de oferta dominavam, e que a ligação aparente entre ações e preços na bomba muitas vezes mascarava divergências setoriais muito mais complexas.

2019: Calmaria Antes da Tempestade

Até 2019, os mercados de ações e de petróleo tinham-se normalizado após o reset de 2014-2016. Os preços da gasolina antes do COVID mantinham-se numa faixa estável, apoiados por condições equilibradas de oferta e procura e expectativas de crescimento moderado. Os mercados de ações permaneciam otimistas. Este período reforçou as expectativas dos investidores de que a correlação tradicional entre ações e petróleo persistiria, criando uma falsa sensação de continuidade que o choque de 2020 viria a destruir.

Determinantes Mecânicos dos Preços na Bomba

Mesmo quando oscilações no mercado de ações influenciavam os preços futuros do petróleo durante os anos pré-COVID, os preços da gasolina no retalho eram determinados por fatores adicionais que muitas vezes atrasavam ou atenuavam a transmissão:

  • Custos do petróleo bruto e margens de refinação: Historicamente, o petróleo bruto representava cerca de metade a dois terços do preço na bomba; as margens de refinação (crack spreads) capturavam a camada de custo secundária
  • Distribuição, impostos e fatores regionais: Impostos estaduais e locais, misturas sazonais de gasolina e custos de transporte criavam divergências de preço locais, não relacionadas às movimentações do mercado de ações
  • Atrasos temporais e preços discretos: As estações de serviço ajustavam os preços em etapas, respondendo às condições competitivas locais, e não em tempo real às volatilidades diárias do mercado de ações

Estas realidades mecânicas significavam que, mesmo que os desenvolvimentos no mercado de ações influenciassem os preços futuros do petróleo a curto prazo, os preços na bomba respondiam de forma mais lenta e variavam significativamente entre regiões.

Fundamentos Empíricos: Correlação, Causalidade e Transmissão

O Brookings Institution e investigadores académicos documentaram consistentemente períodos de correlação positiva entre ações dos EUA e preços do petróleo no período pré-COVID, especialmente durante episódios claros de procura impulsionada por fatores macroeconómicos. Contudo, essa correlação raramente se provou causalidade. Quando ambos os ativos se moviam em conjunto, os fundamentos macroeconómicos partilhados—expectativas de crescimento, sinais de política monetária, condições de procura global—impulsionavam o movimento conjunto.

Estudos com variações temporais mostraram que a causalidade podia ocorrer em ambas as direções, dependendo do regime. Em alguns períodos, choques de petróleo (frequentemente impulsionados por oferta) lideravam as ações do setor energético, que depois influenciavam os índices amplos. Em outros, o sentimento do mercado de ações influenciava a posição nas commodities via canais financeiros. A direção e a força dessas relações variavam consideravelmente de ano para ano.

A COVID-19 como Ponto de Inflexão: Quando os Preços da Gasolina Antes do COVID se Tornaram Irrelevantes

A pandemia de 2020 criou uma descontinuidade nas relações habituais de mercado. No primeiro trimestre de 2020, os mercados de ações enfrentaram uma crise severa, com expectativas de crescimento colapsadas e volatilidade em alta. Simultaneamente, a procura de petróleo contraiu-se abruptamente, pois o transporte e a atividade industrial pararam. Ambos os ativos caíram fortemente—mas, desta vez, a causalidade foi esmagadoramente impulsionada por uma catástrofe de procura, e não por transmissão do mercado financeiro.

A natureza sem precedentes do choque ficou evidente no comportamento extremo dos futuros: o petróleo WTI chegou a negociar a preços negativos em abril de 2020, refletindo limitações de armazenamento e liquidações forçadas. Os preços da gasolina antes do COVID nunca tinham experimentado dinâmicas semelhantes. Este episódio revelou que, embora os canais do mercado financeiro possam importar-se com os preços das commodities em tempos normais, choques massivos de oferta ou procura podem sobrecarregar todos os outros mecanismos de transmissão.

A fase de recuperação pós-COVID complicou ainda mais a narrativa tradicional. As ações do setor de energia recuperaram-se rapidamente, mesmo quando as ações em geral ainda estavam atrasadas, mostrando que fatores específicos do setor (procura de reabertura por combustível) podiam divergir do desempenho geral do mercado.

Vencedores e Perdedores Setoriais em Diferentes Regimes

Compreender a linha de base pré-COVID ajuda a esclarecer como as avaliações setoriais de ações respondem às mudanças nos preços do gás e do petróleo:

  • Produtores e serviços de energia: Correlação historicamente positiva com o petróleo; preços mais altos de crude significavam maiores receitas e avaliações
  • Transporte e consumo discricionário: Custos mais elevados de combustível aumentavam despesas operacionais de companhias aéreas, transporte rodoviário e marítimo, criando obstáculos às avaliações de ações durante os rallys do petróleo
  • Utilidades e energias alternativas: O desempenho relativo variava; custos de combustível mais altos podiam melhorar a posição competitiva para eletrificação e energias renováveis em certos regimes

Políticas, Regulação e Influência do Banco Central

Durante o período pré-COVID, a política do banco central—particularmente as expectativas em torno das taxas de juro e do afrouxamento quantitativo—modelava tanto os mercados de ações quanto os de commodities. Quando os mercados de ações caíam e surgiam sinais de recessão, as expectativas de flexibilização monetária frequentemente sustentavam os preços das commodities, criando um efeito amortecedor nas quedas do preço do petróleo. Este canal de política monetária era uma ligação indireta importante que conectava os movimentos do mercado de ações aos preços do crude e da gasolina.

Decisões de produtores por parte de grandes nações exportadoras de petróleo (coordenação da OPEP) também permaneciam um fator determinante principal das trajetórias de preço, muitas vezes sobrepondo-se às influências puramente financeiras do mercado, especialmente quando ajustes de oferta eram substanciais.

Implicações Práticas para Investidores e Consumidores

Para investidores que questionam se os movimentos do mercado de ações afetam os preços do gás, as evidências do período pré-COVID ofereceram várias lições práticas:

  • Diversificação de exposição à energia: ações de energia proporcionavam exposição direta ao preço do petróleo, mas carregavam riscos setoriais distintos do beta do mercado amplo
  • Correlação imperfeita: sinais do mercado de ações mostraram-se imperfeitos preditores dos preços na bomba na semana seguinte, pois o gás no retalho respondia com atrasos e variações regionais
  • Oportunidades de hedge: os mercados de futuros de commodities ofereciam ferramentas para gerir o risco de preço, embora custos de execução e rollover exigissem atenção cuidadosa
  • Monitorização de dados: acompanhar relatórios semanais da EIA, a estrutura de futuros (contango vs. backwardation) e o desempenho de ações do setor energético forneciam orientações mais fiáveis do que tendências gerais do mercado de ações

Principais Conclusões sobre Ligações de Mercado

A relação entre o mercado de ações e os preços do gás? A evidência do período pré-COVID fornece uma resposta matizada:

Sim, mas principalmente de forma indireta. Ambos os mercados geralmente respondem a choques macroeconómicos comuns e condições financeiras. O stress no mercado de ações pode influenciar o petróleo bruto através do sentimento, liquidez e vendas forçadas de posições em commodities.

No entanto, os preços da gasolina no retalho são determinados por múltiplos fatores além dos movimentos do mercado de ações. Custos do petróleo bruto, margens de refinação, distribuição, impostos e condições de oferta locais moldam os preços na bomba. Movimentos do mercado de ações raramente provocam mudanças imediatas e proporcionais na bomba.

As relações variam ao longo do tempo. Em alguns períodos, as ações lideram as commodities; noutros, as commodities (especialmente quando impulsionadas por oferta) lideram os retornos setoriais de ações.

O choque de 2020 revelou os limites das explicações baseadas no mercado financeiro. Quando a procura física colapsa ou as cadeias de abastecimento se rompem, os canais habituais de transmissão tornam-se secundários face à disrupção fundamental.

Monitorização de Indicadores ao Vivo Hoje

Para quem acompanha correlações de mercado e gere exposição a instrumentos relacionados com energia, acompanhar fluxos de dados essenciais continua a ser fundamental:

  • Relatórios semanais da EIA sobre preços de gasolina e petróleo bruto, inventários e utilização de refinarias
  • Estrutura de futuros (contango vs. backwardation) e relatórios de posicionamento de traders
  • Desempenho de ações do setor energético em relação aos índices amplos e ações de energias alternativas
  • Fluxos de ETFs de commodities e alterações de interesse aberto que indiquem mudanças de posicionamento direcional
  • Comunicações do banco central que afetem as expectativas de taxas de juro e avaliações cambiais

Compreender como os preços da gasolina responderam aos movimentos do mercado de ações antes do COVID oferece uma perspetiva histórica para interpretar o ambiente financeiro mais volátil e interligado de hoje.

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