A SEC dos EUA publica uma nova minuta de estratégia: como a estrutura de regulamentação de ativos digitais deve evoluir?

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Em 2 de junho de 2026, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, em inglês) publicou o rascunho do planejamento estratégico para o período fiscal de 2026—2030 e abriu oficialmente uma consulta pública para receber comentários. Este plano de cinco anos, elaborado pelo novo presidente Paul Atkins, estabelece de forma explícita criptoativos como uma prioridade estratégica, ao mesmo tempo em que se compromete a “criar uma estrutura regulatória de maneira racional, coerente e baseada em princípios”.

Esta é a primeira vez na história da SEC que há um foco tão claro em criptoativos em um documento estratégico no nível mais alto. Após a publicação do rascunho, o mercado cripto entrou rapidamente em um estado de intensa atenção. Em 4 de junho de 2026, com base em dados do Gate, o BTC estava cotado em US$ 63.600, com queda de 7,2% nas últimas 24 horas; a mínima intradiária foi de US$ 61.400. Já o ETH estava cotado em US$ 1.775, com queda de 7,7% nas últimas 24 horas; a mínima intradiária foi de US$ 1.716.

A questão central é: o que exatamente esse rascunho significa? Como o ambiente regulatório para a indústria cripto deve mudar de forma substantiva?

Onde os criptoativos entram no plano de cinco anos da SEC

O rascunho consolida as metas estratégicas para os próximos cinco anos em três pilares: aprimorar políticas regulatórias para apoiar a inovação e a formação de capital; retomar o propósito original da legislação do Congresso no modelo de fiscalização; e atualizar a eficiência operacional das instituições. Vale destacar que o primeiro pilar define objetivos específicos para criptoativos e tecnologia de razão distribuída, exigindo explicitamente que o setor receba uma base regulatória “sólida”.

No rascunho, a SEC admite que o ritmo de crescimento dos criptoativos já ultrapassou o alcance das regras regulatórias existentes e que é preciso fornecer o quanto antes mais certeza jurídica para os participantes do mercado.

Pelo peso do texto, criptoativos não são tratados como uma pauta isolada, mas sim incorporados nos dois papéis tradicionais de “formação de capital” e “eficiência de mercado”. Isso indica que a SEC está tentando encaixar criptoativos no arcabouço de discurso regulatório de valores mobiliários já existente — e não tratá-los como um campo especial que exigiria começar do zero. Essa abordagem difere significativamente da lógica confrontativa do estágio anterior de “regulação por fiscalização”.

O que mudou fundamentalmente na forma de pensar da SEC sobre regulação

Se eu resumir em uma palavra a virada regulatória refletida neste rascunho, seria “de regras substituídas por fiscalização para regras primeiro”. No passado, o principal instrumento regulatório da SEC era o teste de Howey de 1946: determinar, caso a caso, por meio de ações judiciais, se um criptoativo específico constitui um valor mobiliário. Durante o mandato de Gary Gensler, apenas em 2023 a SEC iniciou 46 ações de fiscalização relacionadas a criptoativos, estabelecendo uma máxima histórica.

No entanto, a trajetória de “fiscalização substituindo regras” tem desvantagens evidentes: ela não apenas falhou em fornecer orientações de conformidade universais, como também gerou uma incerteza ainda maior para o mercado. O rascunho propõe claramente que a função de fiscalização da SEC deve retornar ao propósito original da legislação do Congresso — focando em combater fraudes e manipulação de mercado, e não em ampliar limites regulatórios por meio de medidas temporárias de fiscalização. O rascunho também enfatiza que o parâmetro de fiscalização deve ser “efeito dissuasório e orientação clara”, e não “número de casos ou valores de multas”.

Essa formulação contrasta claramente com a prática do ciclo estratégico anterior. O planejamento estratégico de 2022—2026 ainda colocava “proteger os investidores” como objetivo prioritário; o rascunho preserva essa missão, mas adiciona a expressão “equilibrar custos e benefícios da regulação”. A introdução da análise de custo-benefício significa que a SEC começa a admitir que a regulação excessiva causa danos reais à eficiência de mercado e à formação de capital.

Uma disputa de sete anos de regulatório: como este rascunho muda a narrativa da indústria

A disputa entre a indústria cripto e a SEC dura há quase dez anos. Desde a primeira ação de fiscalização da SEC contra criptoativos em 2013, o setor ficou permanentemente em uma zona cinzenta regulatória.

A virada aconteceu em abril de 2025, quando Paul Atkins assumiu oficialmente a presidência da SEC. Antes disso, o presidente interino Mark Uyeda já havia iniciado sinais de mudança de política: foi criado um grupo de trabalho de criptoativos liderado pela comissária Hester Peirce e, a partir de fevereiro de 2025, foram sendo encerradas civilmente ações de fiscalização e investigações contra empresas de cripto. Dentro dos 12 meses após a posse de Atkins, a SEC encerrou várias ações contra empresas cripto, aprovou múltiplos ETFs que têm criptoativos como referência e assinou um memorando de entendimento de coordenação regulatória de criptoativos com a CFTC.

Em abril de 2026, o discurso de Atkins na Convenção de Bitcoin de Las Vegas pode ser visto como uma declaração prévia deste rascunho de planejamento estratégico. Ele afirmou explicitamente que a SEC abandonará a política do “enterro da cabeça na areia” e o modelo de “regular por meio de fiscalização”, para abraçar a inovação em criptoativos. Atkins também revelou que a SEC está trabalhando de perto com a CFTC para mudar um estado historicamente descoordenado entre as duas instituições — ele chegou a comparar a situação anterior ao “fogo cruzado entre dois castelos”, que destruiu uma grande quantidade de novos produtos que poderiam ter avançado.

Do ponto de vista da narrativa da indústria, este rascunho pode ser entendido como um resultado institucionalizado da virada de política em 2025 — ele deixa de ser apenas a postura pessoal de um presidente e passa a ser incorporado como um roteiro oficial da SEC para os próximos cinco anos. Essa institucionalização significa que, mesmo com mudanças de governo na Casa Branca, a continuidade das políticas tende a ser muito maior do que apenas com ordens executivas ou nomeações de pessoal.

Como a clareza regulatória impactará o fluxo de capital das instituições

O capital institucional sempre enfrentou um obstáculo central: incerteza regulatória. A expressão “certeza jurídica” (legal certainty) que aparece repetidamente neste rascunho é uma resposta direta a esse ponto doloroso.

O rascunho enfatiza especialmente dois aspectos. O primeiro é a divisão de responsabilidades com a CFTC. O “CLARITY Act” (projeto de lei de mercados de criptoativos para trazer clareza), que está sendo analisado no Senado, tem como essência registrar permanentemente a classificação dos criptoativos na lei federal — dividindo-os em três categorias: criptoativos como “ativos digitais” de commodities sob jurisdição da CFTC; ativos de contratos de investimento sob jurisdição da SEC; e stablecoins de pagamentos sob jurisdição das instituições reguladoras bancárias. A SEC e a CFTC já classificaram o Bitcoin e outras 15 categorias de ativos como commodities digitais em 17 de março de 2026, mas essa orientação administrativa pode ser derrubada por governos futuros. Se o CLARITY Act for aprovado, essas classificações serão incorporadas permanentemente às normas.

O segundo ponto é o marco regulatório para custódia, negociação e serviços de staking. O rascunho aponta que esses negócios devem funcionar sob a regulação adequada, evitando requisitos regulatórios duplicados ou em conflito. Além disso, emissões tokenizadas e infraestrutura financeira on-chain também aparecem como áreas prioritárias para formação de capital em conformidade.

Para investidores institucionais, essas declarações significam tornar previsível o patamar de exigência para conformidade. Antes, o dilema para a entrada institucional era “não saber quais condutas seriam alvo de fiscalização”; agora, a SEC tenta dar uma resposta clara para “quais condutas são compatíveis com quais condições”. Como apontaram analistas do JPMorgan, o avanço da proposta deve funcionar como um catalisador positivo para acelerar o progresso da linha de produtos de ETF de altcoins.

Ainda assim, há uma realidade que merece cautela: o rascunho estratégico da SEC não é um texto de regras vinculantes. Trata-se mais de uma declaração de visão institucional e direções de trabalho. As mudanças com força de execução de fato dependem ainda do processo legislativo no Congresso e das regras específicas que a SEC venha a formular posteriormente.

Em quais questões as disputas do mercado ainda se concentram

Apesar de o rascunho liberar um sinal claro de virada de política, ele não resolve todas as controvérsias. Na verdade, a publicação do rascunho pode até gerar novos debates.

Controvérsia 1: disputa sobre a característica de rendimento das stablecoins. A seção 404, do rascunho do CLARITY Act — que proíbe que emissores de stablecoins paguem juros a detentores — já provocou forte oposição de defensores de criptomoedas. Grupos do setor bancário argumentam que oferecer stablecoins com retorno de 4% seria injusto ao competir com contas de poupança tradicionais que normalmente rendem cerca de 0,01%. Após negociações entre partidos no Senado, um acordo foi alcançado: permite recompensas “baseadas em atividades” vinculadas a consumo, transferências e conversões, mas proíbe rendimentos do tipo “saldo passivo”, semelhantes a depósitos.

Controvérsia 2: limites do poder regulatório. Embora o rascunho destaque que a função de fiscalização deve voltar ao propósito original da legislação do Congresso, a extensão real da jurisdição da SEC no campo de criptoativos ainda precisa ser esclarecida. Alguns críticos argumentam que os esforços anteriores de fiscalização da SEC no próprio setor já careciam de autoridade regulatória legalmente definida e de base jurídica clara. Antes da aprovação do CLARITY Act, o arcabouço de regulação cripto da SEC permanece em um estado de transição de “orientação administrativa e tratamento caso a caso”.

Controvérsia 3: reversibilidade de orientações administrativas. As atribuições de propriedade de commodity para determinados criptoativos, feitas atualmente por SEC e CFTC, têm natureza legal de orientações administrativas e podem ser totalmente revertidas pelo futuro presidente da SEC. Se o CLARITY Act, que torna essas classificações permanentes, for bloqueado, o mercado norte-americano de criptoativos pode cair no “período de escuridão regulatória” que o senador Loomis alertou.

A existência dessas controvérsias indica que este rascunho estratégico da SEC é mais um framework para abrir um caminho de solução sistêmica de problemas do que uma resposta final. A verdadeira clareza regulatória ainda depende da coordenação de múltiplas forças — incluindo legislação do Congresso, formulação de regras institucionais e autorregulação da indústria.

Depois do rascunho: para onde pode seguir a próxima etapa da regulação cripto nos EUA

Em uma perspectiva mais ampla, este rascunho estratégico da SEC não é um evento de política isolado. Ele faz parte de um conjunto de processos paralelos para construir, de forma sistêmica, um arcabouço de regulação de criptoativos nos EUA.

  1. Dimensão 1: coordenação legislativa. O CLARITY Act foi aprovado no Senado em 14 de maio de 2026 com votação bipartidária de 15 a 9 na comissão bancária. A Casa Branca pretende assinar o projeto de lei antes de 4 de julho. Se a proposta seguir sem problemas, os EUA terão um marco de classificação legal em nível federal para criptoativos — uma base institucional que o planejamento estratégico unilateral da SEC não consegue substituir.
  2. Dimensão 2: competição internacional. Enquanto os EUA intensificam a construção do arcabouço regulatório, as regulamentações da UE para o mercado de criptoativos e os frameworks de conformidade de várias jurisdições na Ásia também avançam simultaneamente. A expressão “garantir que os EUA sejam o melhor ambiente para negócios”, que aparece repetidamente no rascunho da SEC, reflete que o campo de criptoativos está se tornando uma linha de frente da competição institucional entre grandes potências.
  3. Dimensão 3: atualização de infraestrutura. O terceiro objetivo do rascunho se concentra na eficiência operacional das instituições — incluindo uma revisão completa de sistemas legados como EDGAR, e a adoção responsável de inteligência artificial e tecnologia blockchain para melhorar a capacidade regulatória. Isso indica que a própria SEC também está explorando como usar tecnologias emergentes para aumentar a efetividade da regulação.

Em conjunto, 2026—2030 tem grande chance de se tornar uma janela-chave para a transformação do arcabouço regulatório cripto dos EUA, saindo de um modelo orientado por fiscalização para um modelo orientado por regras. O rascunho da SEC fornece um roteiro macro, mas o ritmo de implementação de regras específicas, a velocidade com que obstáculos legais forem eliminados e a evolução do ambiente regulatório internacional vão afetar o efeito real na execução desse roteiro. Investidores e participantes do mercado, ao mesmo tempo em que acompanham os sinais de política, ainda precisam manter uma consciência razoável de risco sobre possíveis idas e vindas de políticas.

Perguntas frequentes

P: O rascunho do planejamento estratégico da SEC tem força vinculante legal?

Não. O rascunho estratégico é um documento estrutural elaborado internamente pela SEC para orientar direções de trabalho e alocação de recursos, não alterando diretamente leis ou regulamentos em vigor. Mudanças com força vinculante de fato ainda dependem de legislação do Congresso ou do processo formal de elaboração de regras da SEC.

P: O que exatamente significa a “forma racional, coerente e baseada em princípios” de regulação mencionada no rascunho?

O sentido central dessa expressão é: a SEC não pretende mais depender de ações de fiscalização voltadas a casos específicos para impulsionar a intenção regulatória, e sim criar regras e orientações aplicáveis de forma geral, oferecendo aos participantes do mercado uma rota de conformidade previsível. Também sugere que a regulação passará a ser mais orientada a objetivos e à coordenação geral, em vez de apenas aplicar mecanicamente estruturas tradicionais de legislação de valores mobiliários.

P: A publicação do rascunho significa que a SEC vai parar imediatamente de fiscalizar empresas de cripto?

Não. O rascunho enfatiza que a prioridade da fiscalização mudará de “expandir limites regulatórios por meio de casos” para “combater fraudes e manipulação de mercado”, mas isso não significa que todas as ações de fiscalização serão encerradas. A SEC mantém poder de fiscalização sobre projetos suspeitos de violar leis de valores mobiliários.

P: Qual é a relação entre o planejamento estratégico da SEC e o CLARITY Act que o Congresso está avançando?

São construções institucionais em níveis diferentes. O planejamento estratégico da SEC é uma diretriz de nível administrativo, enquanto o CLARITY Act é a formulação de um arcabouço legal em nível legislativo. Este último fornecerá classificações legais permanentes em nível federal para criptoativos e imporá limitações legais aos limites de jurisdição da SEC. A coordenação entre os dois aumenta a probabilidade de uma melhoria substancial na clareza regulatória.

P: Como o investidor comum deve entender o impacto do rascunho no mercado?

Os sinais de política divulgados pelo rascunho indicam que o ambiente regulatório dos EUA está caminhando para uma direção mais clara e previsível, o que tem um significado positivo para a saúde de longo prazo do mercado. Ainda assim, os investidores precisam manter clareza de que existe uma defasagem de tempo e a possibilidade de reversões entre o plano estratégico e a implementação de regras específicas; portanto, decisões de investimento devem se apoiar em pesquisas independentes.

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