Os stocks globais de açúcar enfrentam pressão crescente à medida que os principais produtores aumentam a produção

O mercado global de açúcar está a navegar num cenário complexo, onde a volatilidade de preços a curto prazo oculta um desafio mais profundo: a acumulação de stocks de açúcar em todo o mundo. Desenvolvimentos recentes nos mercados cambiais, posicionamento de fundos e tendências de produção estão a moldar as perspetivas para a dinâmica de oferta e níveis de inventário ao longo de 2025 e 2026.

Fortalecimento do Real Brasileiro Pesa sobre o Interesse de Exportação

O açúcar mundial NY março #11 fechou a subir +0,10 (+0,69%) na terça-feira, enquanto o açúcar branco ICE Londres maio #5 terminou a descer -1,00 (-0,24%), refletindo os sinais mistos que atualmente dominam a mercadoria. O principal fator de suporte a curto prazo é o desempenho do real brasileiro face ao dólar. O real subiu +0,31% na terça-feira, mantendo-se pouco abaixo de uma máxima de 1,75 anos, uma dinâmica que impacta diretamente os cálculos de exportação de açúcar do Brasil. Quando o real se valoriza, torna o açúcar brasileiro menos competitivo nos mercados internacionais, desincentivando os exportadores de vender agressivamente e potencialmente restringindo o fornecimento a curto prazo — um fator que apoia temporariamente os preços.

No entanto, esse suporte de curto prazo oculta uma realidade preocupante para os stocks de açúcar globalmente. Embora a força do real brasileiro suporte temporariamente os preços, a tendência subjacente aponta para um aumento estrutural nos níveis de inventário global, à medida que as principais regiões produtoras aceleram a produção.

Posições de fundos curtas excessivas preparam terreno para uma recuperação

Dados de posicionamento de mercado revelam outra camada de complexidade que afeta os stocks de açúcar. O mais recente relatório Commitment of Traders (COT) mostrou que os fundos aumentaram a sua posição curta em futuros e opções de açúcar NY em 14.381 contratos na semana encerrada a 17 de fevereiro, atingindo um máximo histórico de 265.324 posições líquidas curtas, com dados desde 2006. Este posicionamento extremamente pessimista cria potencial para recuperações rápidas de cobertura de posições curtas, embora também evidencie um pessimismo predominante sobre o equilíbrio de oferta e procura e os riscos de acumulação de inventários.

A mínima de 5,25 anos atingida a 12 de fevereiro refletiu preocupações generalizadas de que os stocks globais de açúcar permanecerão elevados, num contexto de excedente persistente. Contudo, posições extremas podem reverter rapidamente, tornando possíveis recuperações táticas mesmo que o cenário fundamental se deteriorar.

Aumento de produção no Brasil, Índia e Tailândia testa stocks de açúcar

As tendências de produção nos três maiores países produtores de açúcar do mundo pintam um quadro de expansão de output que inevitavelmente se refletirá nos stocks de açúcar. A região Centro-Sul do Brasil, que representa a maior parte da produção do país, registou uma queda de 36% na produção na segunda metade de janeiro em relação ao ano anterior, para 5.000 toneladas métricas — uma diminuição preocupante a curto prazo. No entanto, a produção acumulada de 2025-26 até janeiro aumentou +0,9% em relação ao ano anterior, para 40,24 milhões de toneladas, e a proporção de cana esmagada para açúcar subiu para 50,74% na temporada 2025/26, de 48,14% em 2024/25, sinalizando uma intenção de priorizar a produção de açúcar no futuro.

A Índia, o segundo maior produtor mundial, está a experimentar um boom de produção. A Associação das Usinas de Açúcar da Índia (ISMA) reportou que a produção de açúcar de 2025-26, de 1 de outubro a 15 de janeiro, atingiu 15,9 milhões de toneladas, um aumento de +22% em relação ao ano anterior. A ISMA elevou a sua estimativa para o ano completo de 2025/26 para 31 milhões de toneladas em novembro — um aumento de 18,8% em relação ao ano anterior — impulsionada pela monção mais forte dos últimos cinco anos. Mais significativamente, a ISMA reduziu a sua estimativa de uso de açúcar para produção de etanol para 3,4 milhões de toneladas, de uma previsão anterior de 5 milhões de toneladas, potencialmente libertando mais 1,6 milhões de toneladas para exportação e aumentando os stocks globais de açúcar.

Refletindo este aumento de produção, o governo indiano aprovou em fevereiro uma exportação adicional de 500.000 toneladas de açúcar, além da quota de 1,5 milhões de toneladas autorizada em novembro. Esta mudança de política, impulsionada pela forte produção, aumentará de forma significativa a oferta de exportação da Índia, entrando nos stocks globais de açúcar.

A Tailândia, o terceiro maior produtor mundial e segundo maior exportador, também está a expandir a produção. A Thai Sugar Millers Corp projetou que a colheita de açúcar de 2025/26 aumentará +5% em relação ao ano anterior, para 10,5 milhões de toneladas, aumentando a pressão sobre os inventários globais.

Previsões de excedente indicam pressão sustentada sobre os stocks de açúcar

A perspetiva fundamental para os stocks globais de açúcar é marcada por previsões generalizadas de excedente de várias fontes autorizadas. A Organização Internacional do Açúcar (ISO), a 17 de novembro, projetou um excedente de 1,625 milhões de toneladas em 2025-26, após um défice de 2,916 milhões de toneladas em 2024-25. A ISO atribuiu a mudança ao aumento da produção na Índia, Tailândia e Paquistão, prevendo que a produção global de açúcar aumentará +3,2% em relação ao ano anterior, atingindo 181,8 milhões de toneladas em 2025-26.

A análise da Czarnikow, uma das principais traders de açúcar, de novembro, foi ainda mais pessimista, elevando a estimativa de excedente global para 8,7 milhões de toneladas em 2025/26 (um aumento de +1,2 milhões de toneladas em relação à previsão de setembro de 7,5 milhões). A Czarnikow também prevê um excedente global de 3,4 milhões de toneladas na campanha de 2026/27. Outros analistas, como a Green Pool Commodity Specialists (2,74 milhões de toneladas de excedente para 2025/26) e a StoneX (2,9 milhões de toneladas de excedente para 2025/26), projetam dinâmicas semelhantes.

O relatório bianual do USDA, divulgado em dezembro, quantificou essas tendências, prevendo que a produção global de açúcar de 2025/26 aumentará +4,6% em relação ao ano anterior, atingindo um recorde de 189,318 milhões de toneladas, enquanto o consumo global crescerá apenas +1,4%, para 177,921 milhões de toneladas. A métrica crítica para os stocks de açúcar é a previsão de stocks finais: o USDA projeta que os stocks finais globais de açúcar de 2025/26 cairão -2,9% em relação ao ano anterior, para 41,188 milhões de toneladas — uma diminuição modesta que oculta diferenças regionais substanciais e riscos de acumulação.

A Foreign Agricultural Service (FAS) do USDA descreveu uma perspetiva de pressão persistente sobre os stocks de açúcar, prevendo que a produção brasileira de 2025/26 aumentará +2,3% em relação ao ano anterior, atingindo um recorde de 44,7 milhões de toneladas, enquanto a produção indiana disparará +25%, para 35,25 milhões de toneladas. A consultora Safras & Mercado acrescentou que as exportações brasileiras de açúcar em 2026/27 deverão cair -11% em relação ao ano anterior, para 30 milhões de toneladas, apesar do aumento da produção, sugerindo que os stocks de açúcar terão de absorver essa produção antes que a normalização das exportações ocorra.

A convergência do aumento de produção em todas as principais regiões aponta para um desafio estrutural: os stocks globais de açúcar enfrentarão uma pressão crescente ao longo de 2025 e até 2026, independentemente de recuperações de preço de curto prazo ou flutuações cambiais. Embora a força do real brasileiro e o posicionamento extremo de fundos curtos possam gerar suporte tático, o cenário fundamental de aumento de produção e previsões de excedente persistente indica que os stocks de açúcar continuarão a ser uma forte resistência aos preços a médio prazo.

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