Por Hongyu
Desde que comecei a empreender em produtos de social media em 2023, tenho acompanhado Nikita Bier, e desde que ele entrou na X no ano passado como responsável pelo produto, tenho vontade de escrever sobre essa pessoa.
Seus três produtos: Politify/TBH/GAS alcançaram bastante sucesso. Sua empresa tem apenas umas dezenas de pessoas, e talvez esses produtos não tenham atingido um nível de grandeza que nunca caia, pois isso depende de timing, condições e pessoas certas. Mas ele é um dos gerentes de produto social mais visionários que conheço, e muitos na comunidade anglófona dizem que ele é o rei da disseminação viral.
A trajetória empreendedora de Nikita Bier parece um experimento minucioso sobre as fraquezas humanas: de uma ferramenta de simulação de políticas na universidade de Berkeley, a duas aplicações virais que viciaram jovens, até a liderança na iteração de produtos na X (antigo Twitter). Ele consegue sempre encontrar um ponto de alavanca na delicada psicologia do usuário: por que clicam, por que permanecem — e assim induzir mudanças comportamentais em larga escala. Aos 31 anos, já transformou ideias de pequenas equipes em saídas de alto valor duas vezes. Agora, leva essa estratégia para a plataforma de Musk, tentando redesenhar o futuro de um gigante social. Mas por trás do sucesso brilhante, há inúmeros fracassos, tentativas e erros, e uma coragem de encarar a “verdade vergonhosa”.

(Nikita explica no TED por que criou o Politify, link: https://www.youtube.com/watch?v=k9QTVII_lkg)
O ponto de partida de Nikita não foi a Silicon Valley, mas sua paixão por mexer em sites desde pequeno. Aos 12 anos, começou a criar páginas de aplicações de consumo, como uma loja online completa, e já se perguntava por que os usuários clicavam e permaneciam — talvez por curiosidade, urgência ou emoção. Essa prática precoce o tornou sensível ao comportamento do usuário.
Essa sensibilidade se revelou claramente quando ele estudava em Berkeley.
Seu primeiro produto, Politify, parece uma calculadora de impostos, mas foi além das ferramentas similares da época. Em 2012, perto das eleições, muitos concorrentes eram apenas calculadoras simples de impostos, baseadas em estimativas grosseiras de taxas; Politify, por outro lado, exigia detalhes como situação familiar e simulava como as políticas de candidatos como Obama ou Romney afetariam a economia pessoal, comunitária e nacional — incluindo mudanças de renda, impacto nos gastos e uso de serviços públicos.

Essa ideia veio da observação de Bier: a maioria dos americanos vota sem considerar seus interesses econômicos, levando a comportamentos autodestrutivos. Politify usa algoritmos de dados e gráficos visuais para atacar essa cegueira, mostrando ao usuário que “apoiar um candidato pode custar US$2000 por ano”, levando-o a refletir, compartilhar e pensar na sua decisão de voto.
Essa lógica não é apenas funcional, nem uma simples cópia de outros; ela nasce de uma extensão natural das dores do usuário. Essa é a maior diferença entre produto e ferramenta: produtos são extensões e reinterpretações de emoções, enquanto ferramentas resolvem problemas específicos. Não vou aprofundar aqui.
O impacto do Politify foi além do campus. Durante as eleições de 2012, sem gastar um centavo em marketing, atraiu 4 milhões de usuários, liderou downloads e ganhou prêmios, apoiado pela Knight Foundation, que o expandiu para Outline.com, colaborou com governos de Massachusetts e outros, promovendo discussões sobre “democracia digital”. Em TED, Bier afirmou: “A assimetria de informação na decisão do eleitor é a raiz dos problemas sociais.” Embora não haja dados que comprovem retorno financeiro, isso mostrou o talento viral de Bier: usar políticas para explorar fraquezas humanas.
Depois, ele refletiu na X: “Os consumidores não adotam produtos por causa de funcionalidades, mas pelo sentimento que eles proporcionam.” Essa percepção virou uma linha condutora em todos os seus produtos — do “auto-interesse” do Politify ao circuito de dopamina dos apps seguintes.

O que realmente colocou Nikita Bier no mapa foi o TBH (To Be Honest), de 2017. Um app anônimo de “curtir” entre estudantes do ensino médio, que só permitia feedback positivo, evitando socialização tóxica. Começou numa escola na Geórgia, e, por meio de uma viralização natural entre os estudantes, atingiu 5 milhões de usuários em dois meses, com 2,5 milhões de ativos diários. Tudo isso com apenas quatro pessoas: Nikita Bier e três cofundadores (Erik Hazzard, Kyle Zaragoza, Nicolas Ducdodon).

[Imagem do produto TBH]
Ao analisar o sucesso, percebe-se que ele capturou uma demanda primária dos jovens: o desejo de validação social anônima — a excitação de receber elogios anônimos, ativando circuitos de dopamina (“Quem gosta de mim? Quem me acha interessante? Devo me aproximar?”).
Bier revelou em podcast que, após fracassar com 14 apps, eles entenderam esse ponto; tentaram também uma versão mais negativa de avaliação anônima, mas sem sucesso — pois era só uma versão digital de cyberbullying. Então, mudaram para avaliações positivas anônimas.
Depois do lançamento, o TBH chamou atenção do Facebook, que tentou usar aquisições para resolver seus problemas. Desde o Instagram até o Mnus, o Facebook sempre tenta comprar ou copiar o que funciona.
Na época, o Snapchat dominava o mercado juvenil, e o Facebook enfrentava uma crise de envelhecimento e um ecossistema de conteúdo tóxico.
O modo de interação positiva do TBH alinhou-se à estratégia de “comunidade saudável” de Zuckerberg; mais importante, sua viralidade mostrou o potencial de engajamento de jovens sem orçamento — uma prova de que, com criatividade, é possível ativar o público jovem de forma viral. Após a aquisição, o TBH operou de forma independente, mas foi encerrado em 2018 por queda de uso. Bier entrou na Meta como gerente de produto até 2021.
Essa operação foi uma vitória dupla: o Facebook reforçou sua estratégia de aquisições (como o Instagram), Bier ganhou dinheiro e experiência em grandes empresas, e provavelmente aprendeu a manter velocidade de inovação em escala.

Em 2022, Bier voltou com força, lançando o Gas — uma versão aprimorada do TBH, com recursos de votação, gamificação e pagamento para revelar quem gosta de você. Em três meses, atingiu 10 milhões de usuários, receita de US$11 milhões, e chegou ao topo da App Store, superando TikTok e Meta, tornando-se o app mais popular nos EUA.
Ele usa o interesse dos usuários em pagar para descobrir quem elogia, criando um ciclo de monetização. Em janeiro de 2023, a Discord comprou o Gas por US$50 milhões, reconhecendo seu entendimento do público jovem e suas técnicas de growth hacking, que transformam viralizações momentâneas em receita contínua.

“Daqui a cinco anos, vendemos para o próximo grande player.”
Resumindo, seus dois modelos de empreendedorismo dependem de equipes pequenas, sem financiamento externo, com rápidas tentativas e erros. Apesar da alta taxa de fracasso, quando acerta, explode viralmente.
A abordagem de Bier é simples, mas dura.

Foca no benefício para a rede, não em resolver um problema individual
Ele reforça: bons aplicativos de consumo não resolvem só o problema de um usuário, mas servem toda a rede; não consertam bugs de concorrentes, mas reinventam o ciclo de crescimento.
“Não otimize 10% de mensagens ou fotos, isso já foi feito por WeChat, Instagram e similares. Novos players precisam de ideias virais, de dopamina, para partir do zero.”
Seu conceito favorito é “ponto de virada na vida” — momentos frágeis como estudar, negociar, entrar no mercado de trabalho, onde o usuário mais deseja conexão. Se o produto acertar, explode.
Bier também admite abertamente: é preciso reconhecer a “verdade vergonhosa” da natureza humana, como o desejo primário por elogios, status e validação social. Só amplificando essas emoções se consegue criar algo viciante. Ele vê o consumidor como “cérebro de lagarto”: política ou descentralização não motivam adoção; só o dinheiro e o namoro, esses instintos básicos. Construir produtos com “mente de louco”: 99% das decisões são cruciais, a taxa de fracasso é alta, mas a iteração é o caminho. No X, ele chama isso de “honestidade acadêmica”: admitir erros rapidamente, abraçar feedback, evitar que grandes empresas persigam ilusões.
Após duas saídas, Bier não ficou parado. Voltou seu olhar para crypto/Web3 — mas de forma pragmática: não especulando com moedas ou construindo blockchains, e sim usando sua experiência viral para ajudar blockchains de ponta, como a Solana, a construir ecossistemas móveis de consumo. Em setembro de 2024, entrou na LightSpeed Venture Partners como parceiro de crescimento de produto. A LightSpeed é uma investidora antiga na Solana. Nikita foca em otimizar crescimento viral, efeitos de rede e estratégias de distribuição para as empresas do portfólio, evitando ficar preso a uma única blockchain.
Em 25 de março de 2025, entrou oficialmente na Solana Labs como consultor. Ele declarou que, nos últimos anos, suas opiniões sobre crypto foram controversas, mas que a recente flexibilização regulatória, a maior abertura do App Store para crypto e a popularização do memecoin — com a carteira Phantom chegando a milhões de dispositivos — fizeram da Solana uma plataforma ideal para aplicações de consumo. Seu trabalho na Solana envolve impulsionar o crescimento do ecossistema móvel e projetos relacionados.
Porém, ele mantém certa distância do universo cripto. Apesar de ter atuado como consultor na Pump.fun, por meio de conexões na Solana, e de ter elogiado publicamente o fundador Alon, ele reforça que não possui participação na Pump.fun.
De vez em quando, comenta no X sobre memecoins, como uma provocação: “dropping a meme coin is a liquidation of your brand equity” (“lançar uma meme coin é como vender sua marca”), ou “every single meme coin launched in the last year has gone to zero” (“todas as meme coins lançadas no último ano zeraram”). Mas são mais provocações ou declarações morais, sem promover ativamente esses tokens.
Esse episódio no universo cripto está alinhado ao seu estilo habitual:
Depois de entrar no X, às vezes é chamado de “maximalista da Solana”, especialmente quando as mudanças de algoritmo impactam o conteúdo relacionado à blockchain. Mas tudo isso também prepara o terreno para o posicionamento financeiro do X.
Em junho de 2025, Bier oficialmente assumiu como responsável pelo produto no X.

Em 2022, Nikita Bier se ofereceu publicamente ao Elon Musk para ser VP de produto do Twitter.
Depois de assumir, voltou a se envolver intensamente, implementando várias funcionalidades — aqui uma lista rápida: otimização do feed principal em julho, pré-visualização de funcionalidades comunitárias em outubro. Em janeiro de 2026, o ponto alto: junto ao time de algoritmos, ajustaram a página de recomendações, aumentando o conteúdo de amigos, conexões mútuas e seguidores, além de lançar o Smart Cashtags (preços de ações em tempo real + discussões), recursos de rascunho (app e web), combate a spam de IA, entre outros.

Por que tudo isso? A lógica dele é:
Essas ações criam um ciclo fechado: primeiro, aumentar a retenção; depois, explorar o potencial de monetização. E os resultados aparecem: aumento de 60% nos downloads do app, crescimento de 20-43% no tempo de uso, assinaturas ultrapassando 1 bilhão.
Desde o viral do Politify, passando pela receita do Gas, até o recorde de assinantes no X, ele prova que o produto é uma “alavanca emocional” que movimenta a humanidade.
Em 16 de janeiro, Nikita lançou uma bomba: anunciou que o X revisaria sua política de API para desenvolvedores, proibindo apps do tipo “infofi” (que recompensam usuários por postar), e revogou o acesso à API desses aplicativos.

Infofi era uma palavra-chave no universo cripto, referindo-se a um modelo de incentivo por pontos ou tokens para produção de conteúdo na plataforma, como Kaito, Cookie, entre outros. Essas apps fizeram sucesso, com usuários ganhando recompensas por “yap” (postar conversas), mas também geraram uma quantidade enorme de “slop” (conteúdo de baixa qualidade) gerado por IA e spam de respostas, poluindo a timeline. Se você leu até aqui, deve concordar que a decisão de Nikita de banir o Infofi foi natural: conteúdo de baixa qualidade não só polui a timeline, mas pode levar à perda massiva de usuários.
Nikita sempre reforçou que seu foco é “servir a rede, não o indivíduo”. O conteúdo do Infofi prejudicava a qualidade do conteúdo na plataforma, indo contra sua filosofia de crescimento.
Mais fundo, essa decisão também pode estar em conflito com a estratégia do X no universo cripto.
O X está promovendo funcionalidades financeiras, como os Smart Cashtags com preços de ativos em tempo real (incluindo cripto), com uma versão de pré-visualização que suporta contratos inteligentes e menções a ativos, com o objetivo de transformar o X na principal fonte de notícias financeiras e discussões de negociação.
Na visão de Musk, o X deve integrar pagamentos, DeFi e até o ecossistema de memecoins, mas tudo isso depende de conteúdo de alta qualidade. Se o Infofi continuar proliferando, a plataforma ficará inundada de conteúdo de baixa qualidade, assustando investidores sérios e construtores. Já há uma tendência de aumento de lixo na plataforma.
Ao banir o Infofi, Bier está preparando o terreno para os sonhos de Musk no universo cripto: eliminar scams, focar em uma rede sustentável, e criar uma “infraestrutura de emoções” que sustente o ecossistema. Essa jogada pode causar um pequeno desconforto no curto prazo, mas, a longo prazo, pode fazer do X uma referência no mundo cripto.
Num cenário onde o social de consumo fica cada vez mais difícil, a estratégia de Bier parece tanto antiga quanto inovadora. Já vimos muitas apps que explodiram de um dia para o outro e depois caíram. Agora, ele tem o X — um campo de testes maior. Se der certo, pode mudar as regras do social; se der errado, será mais um capítulo de tentativa e erro. E o tempo dirá.