Coisas do Oriente Médio丨Sério Pingshu: Tensão no Oriente Médio combinada com a instabilidade na América Latina impacta a economia global

Pergunte ao AI · Que oportunidades de upgrade industrial traz a transformação das relações económicas e comerciais China-Brasil numa parceria estratégica?

Agência de Notícias Xinhua na China, Nanping, província de Fujian, 27 de março — Título: A instabilidade no Médio Oriente, somada às tensões na América Latina, abala a economia global

— Entrevista com Sérgio Hiratuka (Celio Hiratuka), professor da Universidade Estadual de Campinas, Brasil

Agência de Notícias Xinhua: Han Yu

Os conflitos geopolíticos estão a remodelar a economia internacional. No fim de março, os combates entre os EUA e o Irão continuam a perturbar a passagem do Estreito de Ormuz; o preço de liquidação do Brent atingiu níveis elevados desde julho de 2022, evidenciando de forma concentrada a fragilidade do setor da energia, do transporte marítimo e dos mercados financeiros.

E, neste contexto, os laços económicos e comerciais entre a China e o Brasil continuam a expandir-se: de acordo com os dados da Administração-Geral de Alfândegas da China, em 2025 o valor do comércio de mercadorias entre China e Brasil atingiu 188 mil milhões de dólares, mantendo-se em níveis elevados nas relações económicas e comerciais bilaterais.

A Agência de Notícias Xinhua “Perguntas sobre o Leste e o Oeste” fez, a este propósito, uma entrevista ao professor Sérgio Hiratuka (Celio Hiratuka, também traduzido como Si Li Ao · Ping Zha). Após estudar durante muito tempo a economia internacional e as relações China-Brasil, ele considera que as relações entre China e Brasil estão a evoluir para uma parceria estratégica mais ampla e mais completa; num mundo em que a interdependência mútua é cada vez mais “armada” e em que as cadeias globais de valor estão a ser reorganizadas ao longo de fronteiras geopolíticas, isso não diz respeito apenas à resiliência económica bilateral, mas também fornece uma referência real para o Sul Global procurar autonomia estratégica em ambientes turbulentos.

Resumo da entrevista em formato integral, conforme segue:

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Do ponto de vista da economia internacional, como avalia os principais impactos desta vaga de instabilidade na economia global? Isso significa que a economia mundial está a entrar numa nova fase com maior volatilidade e incerteza?

**Sérgio Hiratuka: Eu acredito que a instabilidade geopolítica na Venezuela e no Médio Oriente afeta a economia global principalmente por três canais.

Em primeiro lugar, o mercado energético. A volatilidade do preço do petróleo intensifica as pressões inflacionárias e torna o processo de transição energética ainda mais complexo.

Em segundo lugar, as cadeias de abastecimento. Os conflitos perturbam as rotas de transporte marítimo, elevam os custos de transporte e de comércio e aceleram a fragmentação do comércio mundial e das cadeias globais de valor.

Em terceiro lugar, os mercados financeiros. Os fluxos de capitais para ativos de refúgio, como o dólar, fazem com que as economias emergentes enfrentem maiores oscilações no mercado.

Estes sinais mostram que a economia mundial parece estar a entrar numa nova fase em que a volatilidade se agrava. Aquele pressuposto de relativa estabilidade das circunstâncias internacionais já não existe; a interdependência entre países está a ser cada vez mais “armada”; e as cadeias globais de valor também estão a ser reconfiguradas ao longo das linhas de divisão geopolíticas. O que isto traz não é apenas um impacto de curto prazo, mas sim uma incerteza mais duradoura.

Porto de Xiamen, Província de Fujian. (imagem de arquivo) Foto: Repórter Wang Dongming, Agência de Notícias Xinhua

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Neste contexto, como pode resumir o estado global atual das relações económicas e comerciais entre a China e o Brasil? Em termos de dimensão do comércio, intercâmbio de investimentos, estrutura industrial e áreas de cooperação, que características se destacam hoje nas relações económicas e comerciais China-Brasil?

**Sérgio Hiratuka: A descrição mais adequada das atuais relações económicas e comerciais entre a China e o Brasil é a de que elas evoluíram, gradualmente, de uma relação centrada no comércio para uma parceria estratégica mais ampla e mais complexa.

Os dois países estabeleceram relações diplomáticas já em 1974, mas a profundificação com verdadeiro significado ocorreu no início do século XXI. Desde 2010, as relações China-Brasil têm-se expandido ainda mais, não apenas em termos de intercâmbio comercial, mas também no que toca a fluxos de investimento de maior escala, projetos de infraestruturas e cooperação financeira.

Em termos de dimensão do comércio, a China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil. Em termos de investimentos, os investimentos diretos da China no Brasil registaram um aumento significativo, e a estrutura setorial desses investimentos também tem vindo a mudar. Para além das áreas tradicionais, o capital chinês está cada vez mais a direcionar-se para indústrias como automóveis e mobilidade verde, equipamentos de energias renováveis e maquinaria agrícola.

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Na sua perspetiva, qual é a oportunidade mais importante para a cooperação económica e comercial entre a China e o Brasil atualmente? Em que áreas é mais provável que estas oportunidades se concretizem?

**Sérgio Hiratuka: Uma das oportunidades que merece maior atenção é a revitalização industrial (industrial revitalization).

À medida que os investimentos chineses vão mudando progressivamente para áreas como automóveis e mobilidade verde, equipamentos de energias renováveis e maquinaria agrícola, o Brasil tem a oportunidade de alinhar esses investimentos com as prioridades das políticas industriais do próprio país, por exemplo, com o “Plano Nova Indústria Brasil” (Nova Indústria Brasil) e o “Plano de Mobilidade Verde e Inovação” (Mover). Desta forma, o Brasil pode aumentar o nível de implementação local, impulsionar a realização de investimentos em investigação e desenvolvimento, promover a transferência de tecnologia e, assim, inverter as tendências de desindustrialização e de especialização em baixos níveis, que há muito tempo têm atormentado a relação comercial bilateral.

Outra oportunidade importante está na transição energética. À medida que a China se torna um papel importante no setor de tecnologias e equipamentos de energias renováveis, o Brasil pode posicionar-se como um parceiro estratégico na transição global para energias verdes. Isto não significa apenas conseguir atrair investimentos em áreas como energia solar e energia eólica; significa também poder desenvolver, em setores como mobilidade elétrica e energias biológicas, cadeias de abastecimento e capacidades tecnológicas locais.

No setor agrícola, também existe um potencial significativo, com possibilidade de ultrapassar o modelo atual, dominado por exportações em larga escala de monoculturas. O modelo tradicional costuma andar associado à concentração de terras e a pressões ambientais. Na minha intervenção na Terceira Conferência de Wuyi, propus explorar modelos de cooperação mais inclusivos, por exemplo, adaptar maquinaria para transformação na agricultura familiar, e promover a inclusão digital através da interligação e da inteligência artificial. Os pequenos agricultores e comunidades tradicionais que, no passado, não conseguiram beneficiar plenamente dos resultados de prosperidade agrícola impulsionados pela procura chinesa, têm a possibilidade de beneficiar ainda mais.

Jardim de chá ecológico “Yanzi Ke” na Montanha Wuyi. Foto: Repórter Wang Dongming, Agência de Notícias Xinhua

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Com a subida dos riscos externos e o aumento da instabilidade nos mercados internacionais, como devem China e Brasil consolidar e manter ainda mais estáveis as relações económicas e comerciais? Considera que, em termos de coordenação de políticas, facilitação de investimentos e construção de mecanismos de cooperação de longo prazo, que outros esforços podem ambos empreender?

**Sérgio Hiratuka: Para além das negociações comerciais, a criação de mecanismos de diálogo permanentes ajuda a que as duas partes coordenem políticas macroeconómicas, respondam a assimetrias estruturais e identifiquem e tratem antecipadamente os riscos antes de estes se agravarem. Dado o que foi referido sobre as oscilações externas, esta coordenação é necessária para evitar que impactos globais transbordem de forma excessiva para um dos lados.

No que respeita aos mecanismos de cooperação a longo prazo, os dois países precisam de ir além de uma relação apenas comercial e avançar para parcerias institucionais e técnicas mais profundas. Isto pode incluir o desenvolvimento de projetos conjuntos de investigação e desenvolvimento em áreas como inteligência artificial, biotecnologia e energias renováveis.

Além disso, aprofundar ainda mais os laços institucionais, académicos e culturais oferece também importantes oportunidades para construir uma parceria mais equilibrada e mais estratégica.

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Do ponto de vista do Brasil, o significado do mercado chinês e dos investimentos chineses para o desenvolvimento do Brasil está a mudar? Onde vê o maior potencial da cooperação futura entre China e Brasil?

**Sérgio Hiratuka: Do ponto de vista do Brasil, o papel do mercado chinês e dos investimentos chineses, de facto, está a mudar. Isto reflete tanto a crescente maturidade da relação bilateral, como o facto de o Brasil reconhecer cada vez com mais clareza que é necessário ultrapassar o modelo de desenvolvimento da relação bilateral baseado apenas na exportação de matérias-primas em grandes quantidades.

No que toca ao upgrade industrial, o maior potencial reside em o Brasil atrair investimentos chineses que estejam alinhados com as prioridades das políticas industriais do país. Se o Brasil for capaz de introduzir de forma eficaz os investimentos chineses através de quadros de políticas como o “Plano Nova Indústria Brasil” e o “Mover”, é possível aumentar o nível de implementação local, impulsionar a investigação e desenvolvimento e promover a transferência de tecnologia. Isto será claramente diferente do estágio inicial da relação bilateral. Naquela altura, o capital chinês estava mais concentrado em infraestruturas e no desenvolvimento de recursos; e no futuro, o potencial está em que a China não será apenas o comprador das matérias-primas em grandes quantidades do Brasil, mas também poderá tornar-se um parceiro importante para reconstruir as capacidades tecnológicas e as capacidades de produção do Brasil.

No dia 15 de agosto de 2025, hora local, em São Paulo, Brasil, local do ato de conclusão oficial e início de produção da fábrica da Great Wall Motors Brasil e do lançamento da primeira unidade do Haval H6GT. Foto: Repórter Lin Chunying, Agência de Notícias Xinhua

Jornalista da Agência de Notícias Xinhua: Num contexto em que o mundo passa por turbulência e reorganização, que significado tem para o ambiente internacional atual uma relação económica e comercial China-Brasil estável, pragmática e sustentável? Esta relação de cooperação pode também oferecer ensinamentos úteis para uma cooperação mais ampla no Sul Global?

**Sérgio Hiratuka: Num mundo cada vez mais fragmentado, a parceria entre o Brasil e a China pode desempenhar um papel de “âncora” geopolítica, demonstrando que o pragmatismo económico pode ultrapassar as oscilações provocadas pela turbulência ideológica.

No plano internacional, esta relação ajuda a fortalecer a tendência para a multipolarização do mundo e, através de mecanismos como os BRICS, a promover uma governação global mais equilibrada, o que coloca algum desafio às estruturas tradicionais de hegemonia.

Para o Sul Global, o ensinamento mais importante talvez esteja na autonomia estratégica: como utilizar investimentos externos para impulsionar a industrialização do próprio país e alcançar um desenvolvimento sustentável e uma maior autonomia política num contexto de intensificação da competição entre grandes potências. (Fim)

Apresentação do entrevistado:

Sérgio Hiratuka. Foto fornecida pelo entrevistado

Sérgio Hiratuka é professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), diretor do Instituto de Pesquisas Económicas e coordenador do Grupo de Estudos Brasil–China; é também copresidente do grupo de trabalho T20/G20 Brasil 2024 “Comércio e Investimento para Promover um Crescimento Sustentável e Inclusivo”.

Já exerceu funções como coordenador do Centro de Economia Industrial e Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas (NEIT) (2009—2011), vice-secretário executivo da Associação Brasileira Nacional de Economistas Pós-Graduados (ANPEC) (2012—2013), coordenador-geral da educação de pós-graduação do Instituto de Pesquisas Económicas da Universidade Estadual de Campinas (2016—2019) e coordenador da rede de estudos sobre a China no Brasil (RBChina) (2018—2019), entre outras. Os seus temas de ensino e investigação incluem economia internacional, desenvolvimento económico, comércio e investimento internacionais, empresas multinacionais, desenvolvimento industrial e tecnológico no Brasil e relações económicas China-Brasil. Nos últimos anos, tem-se concentrado principalmente em estudos sobre as relações económicas entre o Brasil e a China e publicou diversos resultados em revistas e capítulos de livros em torno desse tema.

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