
O Congresso argentino removeu a opção de pagamento de salários através de carteiras digitais do projeto de reforma laboral, o lobby bancário influenciou a votação no Senado, e a maioria dos argentinos apoiou a liberdade de escolher onde depositar o salário. A legislação atual da Argentina exige que os trabalhadores depositem seus salários em contas bancárias tradicionais, mas a penetração das carteiras digitais cresceu significativamente nas últimas décadas. Uma pesquisa de 2022 do Banco Central da Argentina revelou que apenas 47% dos argentinos possuem conta bancária, uma lacuna que decorre principalmente da desconfiança de longa data no sistema bancário tradicional.
A legislação argentina vigente exige que os trabalhadores depositem seus salários em contas bancárias tradicionais. Apesar dessa exigência, a penetração das carteiras digitais na Argentina aumentou bastante nas últimas décadas. Parte desse crescimento reflete a limitada abrangência dos serviços bancários. Uma pesquisa de 2022 do Banco Central da Argentina revelou que apenas 47% dos argentinos têm conta bancária, uma disparidade causada em grande medida pela desconfiança de longa data no sistema bancário tradicional.
Décadas de instabilidade financeira, incluindo o congelamento de depósitos conhecido como “corralito” em 2001, a inflação persistente e as restrições repetidas ao acesso a fundos, minaram a confiança pública nos bancos e aceleraram a transição para poupança em dinheiro e dólares. O corralito de 2001 foi um evento traumático na história financeira da Argentina. Na altura, o governo congelou todas as contas bancárias para evitar corridas bancárias e fuga de capitais, limitando a retirada semanal de dinheiro. Essa medida durou cerca de um ano, durante o qual inúmeras famílias e empresas enfrentaram dificuldades por não conseguirem acessar suas poupanças, muitas vendo suas economias de toda a vida desaparecerem.
Esse trauma deixou uma marca profunda na sociedade argentina. Mais de 20 anos depois, muitos argentinos ainda hesitam em depositar grandes somas no banco, preferindo manter dinheiro em casa ou comprar dólares para esconder. Essa cultura de desconfiança nos bancos criou espaço para as carteiras digitais de fintechs. Embora também apresentem riscos, pelo menos não são controladas diretamente pelo governo, oferecendo uma sensação psicológica de maior segurança.
Corralito de 2001: Depósitos congelados, inúmeras poupanças desapareceram
Inflação persistente: Taxas anuais que ultrapassam 50% ou até 100%, depreciando rapidamente as poupanças
Controlo de fundos: Restrições repetidas na troca de dólares e nas transferências internacionais
Por isso, as carteiras digitais de fintechs, operadas por provedores de serviços de pagamento não bancários, ampliaram o alcance dos serviços financeiros em todo o país. Plataformas como Mercado Pago, Modo, Ualá e Lemon estão entre as mais utilizadas atualmente. Muitos usuários que não têm acesso a contas bancárias tradicionais dependem dessas aplicações como seu primeiro contato com o sistema financeiro digital formal. Por essa razão, líderes do setor fintech acolheram com entusiasmo uma proposta que permitiria aos argentinos depositar seus salários diretamente em carteiras virtuais. Contudo, essa disposição foi retirada do projeto de reforma laboral antes mesmo do debate no Congresso.
“Excluir o artigo 35 da reforma laboral priva os argentinos do direito de escolher livremente como seus salários são pagos. Na prática, sob pressão do setor, a regra de que os salários devem ser pagos via bancos tradicionais permanece vigente”, afirmou Maximiliano Raimondi, CFO da Lemon, ao BeInCrypto. “A governança requer diálogo, mas é desconcertante que uma medida destinada a ampliar liberdades concretas sofra um revés num contexto onde a liberdade econômica é um princípio fundamental.”
Esse revés resultou de uma forte campanha de lobby do setor bancário argentino, que agiu rapidamente para bloquear a proposta. Nesta semana, associações bancárias enviaram cartas a vários senadores importantes, expondo seus argumentos contra a permissão de depósitos salariais em carteiras digitais. Alegam que as carteiras digitais carecem de regulação adequada, apresentam riscos sistêmicos potenciais e podem aprofundar a exclusão financeira.
“Elas não possuem o mesmo quadro regulatório, prudencial ou de supervisão que os bancos, e sua aprovação criará riscos legais, financeiros, patrimoniais e sistêmicos que afetarão diretamente os trabalhadores e o funcionamento do sistema financeiro”, afirmou o Banco Provincia, principal banco argentino, em comunicado. Esses argumentos parecem proteger os consumidores e a estabilidade financeira, mas, na essência, defendem os interesses estabelecidos dos bancos. Se os salários forem depositados diretamente em carteiras digitais, os bancos perderão uma grande fonte de depósitos, essenciais para suas operações de empréstimo e lucro.
As fintechs responderam que essas alegações são falsas. “Todos os provedores de serviços de pagamento (PSPs) são regulados e supervisionados pelo Banco Central da Argentina (BCRA), e as carteiras digitais representam a porta de entrada para os serviços financeiros de milhões de pessoas, que podem abrir contas virtuais facilmente e gratuitamente, acessando melhores soluções financeiras”, declarou Lemon em nota. Essa resposta é fundamentada: as carteiras digitais não operam em uma zona cinzenta totalmente não regulada, estão sob supervisão do banco central, embora seus padrões regulatórios possam não ser tão rigorosos quanto os dos bancos tradicionais.
Um estudo recente da consultoria Isonomía revelou que 9 em cada 10 argentinos desejam autonomia para decidir onde guardar seus salários. Essa tendência é mais forte entre trabalhadores autônomos e informais. O relatório também aponta que 75% dos argentinos já usam carteiras eletrônicas diariamente. Esses dados de “90% apoiam, 75% usam” contrastam fortemente com a decisão do Congresso. Mostram que a opinião pública e as necessidades reais estão sendo suprimidas pelo poder político e pelos grupos de interesse instalados.
No final, antes de o projeto de lei ser submetido ao Senado para votação, o setor bancário saiu vitorioso. Segundo relatos, o governo removeu as disposições relevantes para evitar tensões com os bancos e aumentar as chances de aprovação final do projeto. Essa negociação política evidencia uma dura realidade: mesmo sob o governo de Milei, que defende a liberdade econômica, quando a opinião pública entra em conflito com interesses poderosos, estes costumam prevalecer.
Nas negociações para ampliar o apoio ao projeto de lei, o partido do presidente Javier Milei concordou em excluir a disposição, apesar de pesquisas mostrarem que a maioria dos argentinos prefere a liberdade de escolher onde depositar seus salários. Essa concessão é extremamente irônica para Milei. Ele foi eleito como um economista ultraliberal, com uma plataforma centrada em “liberdade econômica”, “redução da intervenção estatal” e “reformas de mercado”. Permitir que os trabalhadores escolham onde receber seus salários estaria alinhado com esses princípios. Mas abrir mão dessa cláusula sob pressão do setor bancário é uma traição aos seus valores fundamentais.
Tal concessão pode ter origem em considerações políticas reais. O partido de Milei não possui maioria no Congresso e precisa negociar com outras forças para aprovar leis. A indústria bancária, um dos grupos de interesse mais poderosos da Argentina, pode ameaçar unir a oposição para rejeitar toda a reforma laboral se a cláusula não for retirada. Entre “manter a cláusula, toda a reforma falha” e “retirar a cláusula, a reforma passa”, Milei optou pela segunda. Mas esse compromisso tem o custo de perder apoio popular e comprometer a integridade da reforma.
Para a indústria fintech argentina, essa é uma derrota significativa. Inicialmente, esperava-se que a legalização do depósito salarial em carteiras digitais expandisse sua base de usuários e fundos de forma expressiva. Agora, essa esperança foi frustrada, e elas terão que continuar operando na zona cinzenta (com usuários transferindo voluntariamente salários de bancos para carteiras, o que aumenta custos e atritos). Ainda pior, esse fracasso pode dificultar futuras iniciativas legislativas semelhantes, pois o setor bancário já demonstrou sua capacidade de bloquear reformas que ameaçam seus interesses.
Para os argentinos comuns, esse episódio representa mais um exemplo de “fracasso democrático”. Apesar de 90% apoiarem e 75% utilizarem, o Congresso tomou uma decisão contrária à vontade popular. Essa desconexão entre poder e opinião pública pode aprofundar a desilusão e a raiva da população em relação ao sistema político. O impacto global para criptomoedas e fintechs é que, mesmo em países com crises econômicas severas e bancos tradicionais desonestos, a luta pela legalização de carteiras digitais e cripto ainda enfrenta forte resistência de interesses instalados. Essa resistência não vem apenas dos bancos, mas também de forças políticas vinculadas aos interesses bancários.
Related Articles
As ações de chips do mercado de ações dos EUA caem a curto prazo, a Micron Technology cai 3,4%
ZeroHash Solicita Carta do National Trust Bank à medida que a pipeline de criptomoedas da OCC cresce
Rússia pretende lançar a "Lei de Moedas Estáveis" mais cedo, em julho deste ano, apostando no potencial de pagamento transfronteiriço das moedas estáveis
Rússia propõe legislação sobre stablecoins, afirmando que possuem «potencial enorme»
Quando os mercados asiáticos e pacíficos atingem o limite de queda, por que o Bitcoin mantém-se em bom estado?