
O governo de Uganda cortou a internet na quinta-feira durante as eleições, e o Bitchat alcançou mais de 40 mil downloads. Pela terceira eleição consecutiva, a internet foi cortada; as autoridades afirmam que isso visa reduzir a desinformação, mas na prática é uma forma de repressão. O Bitchat utiliza uma rede mesh Bluetooth que não necessita de internet; as autoridades alegam que podem desligar, mas não tomaram ação. Em setembro, 50 mil pessoas no Nepal usaram o aplicativo para contornar a proibição, e em novembro, durante o furacão que atingiu a Jamaica, tornou-se uma ferramenta crucial.

(Origem: Appfigures)
O Bitchat é um aplicativo de comunicação criptografada que não necessita de internet. Ele usa uma rede mesh Bluetooth e atualmente lidera as classificações na App Store da Apple e na Google Play em Uganda. Outros aplicativos populares incluem VPNs, destacando que, com a proximidade das eleições na quinta-feira, o acesso à informação continua sendo uma das necessidades mais urgentes em Uganda.
Como funciona uma rede mesh Bluetooth em ambientes sem conexão à internet? As comunicações tradicionais dependem de infraestrutura de rede: sinais de celular ou Wi-Fi conectam-se aos servidores do provedor, que retransmitem a mensagem ao destinatário. Quando o governo corta essa infraestrutura, a comunicação é interrompida. Mas a rede mesh Bluetooth adota uma arquitetura completamente diferente: cada telefone com Bitchat se torna um nó na rede, transmitindo mensagens por meio de saltos Bluetooth, sem necessidade de servidores centrais.
O funcionamento específico é o seguinte: o usuário A envia uma mensagem ao usuário C, mas ambos estão fora do alcance Bluetooth direto. A mensagem é enviada ao telefone de um usuário B dentro do alcance, que a retransmite a C. Se B também não puder alcançar C diretamente, a mensagem continuará saltando para D, E, F, até chegar ao destino. Esse mecanismo de múltiplos saltos permite que, mesmo que os usuários estejam a vários quilômetros de distância, a mensagem seja transmitida desde que haja usuários Bitchat suficientes no meio.
Transmissão descentralizada: sem necessidade de infraestrutura de rede, o governo não consegue cortá-la na origem
Criptografia de ponta a ponta: mensagens criptografadas durante o transporte, os nós intermediários não podem ler o conteúdo
Roteamento de salto automático: busca inteligente pelo caminho mais curto, quanto mais usuários, maior a cobertura
O diretor executivo da Comissão de Comunicações de Uganda, Nyombi Thembo, afirmou na semana passada que não cortaria a internet. “Se há rede, por que usar o Bitchat? A rede sempre esteve lá, é só usar a rede.” Ele também alegou que sua equipe tem a capacidade de fechar o Bitchat. No entanto, após a interrupção da internet às 18h de terça-feira (horário local), Thembo não tomou nenhuma ação para fechar o aplicativo. Essa postura de “dizer que pode fechar, mas não fechar” pode refletir duas possibilidades: tecnicamente, é impossível fechar, ou politicamente, eles não querem assumir as consequências.
Dados compartilhados por Calle em 5 de janeiro mostram que mais de 400 mil pessoas em Uganda baixaram o aplicativo, e esse número provavelmente é muito maior agora. Quando a internet é cortada, o Bitchat se torna a única ferramenta de comunicação disponível, levando a um aumento explosivo nos downloads. Essa explosão de uso de aplicativos de resistência à censura durante crises comprova seu valor: quando a infraestrutura centralizada é fechada, soluções descentralizadas se tornam insubstituíveis.
Uganda já cortou a internet três vezes. Durante as eleições de 2016, o presidente Yoweri Museveni, que está no poder há muito tempo, bloqueou a internet e as redes sociais em todo o país sob o pretexto de questões de segurança. Em 2021, uma situação semelhante ocorreu, com uma interrupção de quatro dias na rede na noite eleitoral. Esse padrão repetitivo de cortes mostra que as autoridades consideram o controle da rede uma ferramenta fundamental para manter o poder.
Por que os regimes autoritários têm tanto medo da internet? A resposta está na ameaça que a circulação de informações representa ao poder. Quando fraudes eleitorais, repressões violentas, escândalos de corrupção e outras informações podem ser transmitidas instantaneamente, a consciência de resistência da população é estimulada, e a pressão internacional aumenta. Cortar a rede impede que os cidadãos se organizem e coordenação, além de impedir que o mundo saiba a verdade, permitindo que o governo aja na ausência de informações.
No entanto, a chegada do Bitchat rompe essa lógica. Mesmo com a internet cortada, se houver usuários suficientes que tenham baixado o aplicativo, a rede mesh Bluetooth pode estabelecer um sistema de comunicação paralelo. Os governos não podem tecnicamente desativar o Bluetooth, pois isso faria com que todos os dispositivos Bluetooth — incluindo fones de ouvido sem fio, teclados, alto-falantes — parassem de funcionar, gerando uma insatisfação pública muito maior do que eles podem tolerar.
O Bitchat tem usuários em todo o mundo. Desde então, tornou-se uma solução importante para países onde o acesso à internet é interrompido — seja por intervenção governamental ou por desastres naturais. Em setembro, quase 5 mil usuários no Nepal usaram o aplicativo para contornar uma proibição temporária de redes sociais, enquanto protestos anticorrupção estavam em andamento. Cerca de três semanas depois, Madagascar também enfrentou uma situação semelhante.
Em novembro, o furacão Melissa atingiu o Caribe, levando muitos jamaicanos a recorrer ao aplicativo. Naquele momento, o furacão atingiu a região com ventos de 185 milhas por hora e destruiu as redes de comunicação tradicionais. Esses casos demonstram que o valor do Bitchat não se limita à resistência política, sendo também uma ferramenta essencial em emergências como desastres naturais.
A expansão global do Bitchat revela uma tendência: cada vez mais países enfrentam censura na rede ou infraestrutura frágil. De Uganda a Nepal, Madagascar e Jamaica, o mapa de usuários do Bitchat quase sempre corresponde a “países de alto risco” ou “regiões propensas a desastres”. Esse padrão de uso é tanto seu valor quanto um desafio comercial: como oferecer um serviço sustentável ao mesmo tempo que atende às necessidades de populações vulneráveis?