De facto, o peso tarifário recai sobre os consumidores americanos — e os economistas alertam que o pior pode estar por vir

À medida que o calendário avançou para março de 2026, a realidade económica tornou-se impossível de ignorar: os americanos estão a pagar o preço das tarifas, e o pior pode ainda estar por vir. Uma nova análise de instituições líderes em investigação económica confirma o que muitos suspeitavam — os custos das políticas tarifárias de Trump recaíram principalmente sobre os consumidores e importadores dos EUA, não sobre os exportadores estrangeiros, como os responsáveis do governo têm repetidamente afirmado.

Os dados contam uma história impressionante. Segundo o Instituto Kiel para a Economia Mundial, uma prestigiada organização de investigação alemã, a análise de mais de 25 milhões de remessas, no valor de quase 4 biliões de dólares, revelou que 96% dos custos tarifários foram transferidos diretamente para os americanos. Em 2025, os cerca de 200 mil milhões de dólares arrecadados pelo Tesouro através de tarifas funcionaram como um imposto oculto sobre os consumidores dos EUA. “Em essência, as tarifas são feridas auto-infligidas”, conclui a análise do Instituto Kiel. “São os americanos que estão a pagar o preço.”

Por que os Exportadores Estrangeiros Não Assumiram os Custos

Esta descoberta desafia a narrativa central do governo. Quando Trump anunciou tarifas globais em abril passado, a posição oficial era clara: os países estrangeiros suportariam o peso. No entanto, meses de recolha de dados mostram uma realidade diferente. Os exportadores estrangeiros, afinal, tinham pouco incentivo para reduzir preços em resposta às tarifas. Três fatores explicam porquê:

Primeiro, os exportadores podiam redirecionar remessas para outros mercados, como a Europa e a Ásia, reduzindo a sua dependência do mercado dos EUA. Segundo, as taxas tarifárias tornaram-se tão punitivas que cortes de preços tornariam a exportação invulgarmente pouco rentável. Terceiro, os importadores americanos tinham opções limitadas para obter bens, dando aos fornecedores estrangeiros poder para manter os preços.

Os investigadores do Kiel documentaram isto com estudos de caso específicos. Após Trump impor uma tarifa de 25% sobre bens indianos em agosto de 2025 — posteriormente aumentada para 50% — as exportações indianas para os EUA caíram até 24% em comparação com outros destinos. Em vez de reduzir preços, os exportadores indianos optaram por enviar menos, preservando as margens de lucro. Este padrão verificou-se em vários países e setores.

Os Atrasos do Supremo Tribunal, a Incerteza Persiste

À medida que março começa, a decisão do Supremo Tribunal sobre a constitucionalidade destas tarifas permanece pendente. Os juízes ouviram argumentos a 5 de novembro de 2024, e as questões levantadas sugeriam uma possível maioria contra as tarifas. No entanto, o Tribunal entrou numa pausa de quatro semanas antes de chegar a uma decisão, adiando qualquer veredicto para o final de fevereiro, pelo menos. Agora, mais de dois meses depois, a decisão ainda não foi tomada, deixando a política económica emblemática de Trump suspensa num limbo legal e as empresas americanas a operar sob incerteza contínua.

Este atraso cria um modo económico obscuro peculiar: as empresas não conseguem planear um cenário pós-tarifas, os consumidores não sabem a que preços irão estabilizar-se, e as expectativas de inflação permanecem sem uma direção clara de política.

A Surpresa da Inflação: 2025 Foi Enganosamente Tranquilo

Durante todo o ano de 2025, os americanos experimentaram uma inflação notavelmente baixa — cerca de 2,7% ao ano até dezembro. Muitos acreditaram que o Federal Reserve tinha controlado com sucesso as pressões de preços, mesmo com tarifas historicamente elevadas. Mas esta calma mascarou uma mudança importante: os importadores dos EUA absorveram a maior parte do peso tarifário ao longo de 2025, usando táticas temporárias.

As empresas acumularam inventários antes de as tarifas entrarem em vigor, amortizando o impacto nos preços ao consumidor. Também aumentaram os preços de forma incremental, em vez de de uma só vez, espalhando o impacto ao longo de vários trimestres. Estas reservas atrasaram o verdadeiro custo económico de chegar às carteiras dos americanos.

Peter Orszag, CEO da Lazard, e Adam Posen, presidente do Instituto Peterson para Economia Internacional, alertam que este alívio temporário está a acabar. “Esperamos que a inflação ultrapasse os 4 por cento até ao final de 2026 — não é apenas possível, é provável”, escreveram numa análise recente. No início de 2026, à medida que os estoques dos importadores se esgotam e os aumentos de preços aceleram, os americanos enfrentam um choque real nos custos de vida.

Como os Custos Tarifários Chegam aos Consumidores Americanos

O impacto percorre múltiplos canais. As tarifas aumentam diretamente os preços de importação, que as empresas repassam aos consumidores. Também elevam os custos de bens fabricados localmente que dependem de componentes importados. As prateleiras das lojas apresentam menos opções de produtos, pois os bens tarifados tornam-se economicamente inviáveis de importar. E os próprios importadores enfrentam novos custos ao procurar fornecedores não tarifados ou alternativas de sourcing.

O Instituto Kiel descreve estas perdas económicas ocultas como “peso morto” — desperdício puro que os americanos suportam sem qualquer benefício correspondente. Os custos são reais e estão a multiplicar-se.

Para Além das Tarifas: Um Modo Económico Mais Sombrio a Aproximar-se

As tarifas não são a única ameaça inflacionária no horizonte. Orszag e Posen destacam outras políticas de Trump que contribuem para as pressões de preços. Deportações em massa de trabalhadores estrangeiros agravarão a escassez de mão-de-obra em setores dependentes de migrantes, forçando aumentos salariais e custos mais elevados nos serviços. Os cuidados de saúde domiciliários já aumentam a uma taxa de 10% ao ano — perto de níveis máximos de uma década.

O governo mantém a sua posição. A porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, afirmou: “A taxa média de tarifas aumentou quase dez vezes sob o Presidente Trump, enquanto a inflação arrefeceu dos máximos anteriores. Os exportadores estrangeiros dependentes do mercado dos EUA acabarão por suportar o custo das tarifas.” No entanto, esta afirmação contrasta com as evidências empíricas emergentes de investigadores independentes.

A Psicologia da Inflação: Memórias Moldam Comportamentos Futuros

Talvez o mais preocupante seja que as experiências pessoais de inflação deixam marcas psicológicas duradouras. “As pessoas lembram-se de aumentos bruscos de preços em itens como ovos, carne, cuidados infantis e reparações domésticas muito mais vividamente do que de estatísticas abstratas de inflação”, observam Orszag e Posen. Estas memórias podem moldar o comportamento e as expectativas dos consumidores por gerações, independentemente das medidas oficiais de inflação.

Quando os americanos viram os preços dos ovos duplicarem e os custos da carne dispararem em 2025, essas experiências criaram uma impressão duradoura. Mesmo que as estatísticas oficiais de inflação eventualmente diminuam, o impacto psicológico permanece.

A Problema da Ferramenta Diplomática

Para além da incerteza económica, Trump tem vindo a usar as tarifas cada vez mais como uma ferramenta de diplomacia pessoal, em vez de uma política comercial tradicional. Recentemente, ameaçou tarifas mais elevadas sobre países europeus devido à oposição às suas ambições na Groenlândia. Também avisou com tarifas de 200% sobre vinhos franceses após o presidente francês Emmanuel Macron ter recusado juntar-se ao seu “Conselho da Paz”.

Estes usos imprevisíveis da autoridade tarifária criam uma camada adicional de incerteza que as empresas têm dificuldade em incorporar nos seus planos.

O Que Vem a Seguir: De Facto, Perguntas Difíceis Ainda Permanece

Com a decisão do Supremo Tribunal ainda pendente, o estatuto legal da autoridade tarifária de Trump permanece indefinido. E, com março de 2026 já em curso, a previsão de aumento da inflação começa a concretizar-se. A conclusão definitiva do Instituto Kiel é clara: as tarifas não enriquecem os americanos às custas dos estrangeiros. Simplesmente transferem dinheiro dos consumidores dos EUA para o governo federal — na verdade, um imposto direto sob outro nome.

À medida que o modo económico obscuro se aprofunda e as expectativas de inflação aumentam, os consumidores enfrentam cada vez mais evidências de que eles, e não os governos estrangeiros, se tornaram os verdadeiros pagadores das tarifas. A decisão do Supremo Tribunal, quando chegar, determinará se este quadro de políticas continuará ou se sofrerá uma mudança fundamental. Por agora, os bolsos dos americanos sentem-se cada vez mais vazios, e os previsores económicos tornam-se cada vez mais pessimistas quanto ao ano que se avizinha.

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