
Autor: Zen, PANews
O mercado de criptomoedas da Coreia do Sul pode estar prestes a experimentar uma nova configuração, com investidores de varejo dominando e a ausência de grandes instituições, o que representa uma mudança de cenário.
Em 14 de janeiro, o índice de ações composto da Coreia do Sul (KOSPI) ultrapassou pela primeira vez na história a marca de 4700 pontos durante o pregão, atingindo um recorde histórico. Justamente quando o mercado de ações do país comemorava essa conquista, o mercado de criptomoedas também anunciou silenciosamente uma grande notícia favorável.
De acordo com a mídia sul-coreana, a Comissão de Serviços Financeiros da Coreia (FSC) planeja revogar a proibição de investimentos corporativos em criptomoedas, vigente desde 2017, e pretende permitir que empresas listadas e investidores profissionais participem de negociações de criptomoedas. Em uma reunião do grupo de trabalho entre governo e setor privado em 6 de janeiro, a FSC compartilhou um rascunho de diretrizes relacionadas.
Essa nova regulamentação é, na essência, uma continuação e uma detalhamento adicional do “Plano de Promoção do Mercado de Ativos Virtuais” divulgado pela FSC em fevereiro do ano passado. O plano original previa, na segunda metade do ano passado, um teste piloto permitindo que alguns investidores institucionais com capacidade de assumir riscos abrissem contas de negociação com nome real, para fins de investimento e financeiros.
O público-alvo autorizado a participar do projeto piloto são cerca de 3500 empresas e empresas listadas registradas como investidores profissionais sob a Lei do Mercado de Capitais, excluindo instituições financeiras. A FSC afirmou que investidores profissionais registrados sob a Lei do Mercado de Capitais já têm permissão para investir em derivativos de maior risco e volatilidade, e que essas empresas têm uma alta demanda por negócios e investimentos relacionados à blockchain.
De acordo com o jornal Seoul Economic Daily, a FSC planeja permitir que entidades jurídicas qualificadas invistam até 5% de seu patrimônio líquido em criptomoedas por ano. A nova regulamentação também delimita o escopo das moedas que podem ser investidas, limitando-se às 20 maiores criptomoedas por valor de mercado, com foco em Bitcoin, ETH e outras moedas principais com alta liquidez e grande escala.
A classificação específica será determinada com base nos dados divulgados a cada seis meses pela aliança DAXA, composta pelas cinco principais exchanges de criptomoedas do país. Quanto à inclusão de stablecoins atreladas ao dólar (como USDT), a regulamentação ainda está em discussão, sem uma posição definitiva até o momento.
Além disso, no que diz respeito ao mecanismo de execução de negociações, exige-se que as exchanges dividam e executem em lotes grandes negociações de criptomoedas, estabelecendo limites para o tamanho de cada ordem. Ou seja, ordens de compra e venda de grande volume devem ser fragmentadas em ordens menores e executadas progressivamente, além de monitorar comportamentos anormais de negociação para reduzir o impacto no preço de mercado, prevenir manipulação e riscos de liquidez. Essa estrutura visa garantir que, após a entrada de fundos institucionais, o mercado continue operando de forma estável.
É importante esclarecer que as regras detalhadas no rascunho da nova regulamentação ainda não são definitivas. A FSC enfatizou em comunicado que as diretrizes ainda estão em fase de discussão e elaboração, e que detalhes centrais como limites de investimento e ativos elegíveis ainda não foram finalizados. Fontes informaram que a previsão é de que as diretrizes finais sejam divulgadas entre janeiro e fevereiro de 2026. Se tudo correr bem, as empresas poderão começar a negociar criptomoedas de forma oficial até o final de 2026.
A flexibilização da proibição de investimentos em criptomoedas por parte de empresas pela autoridade reguladora sul-coreana marca uma mudança significativa desde a implementação de políticas rigorosas em 2017.
Em 2017, as criptomoedas, lideradas pelo Bitcoin, tiveram uma explosão de valorização na Coreia do Sul, com o fenômeno do “premium de kimchi” se destacando, e o entusiasmo de investidores de varejo atingindo níveis elevados. ICOs e outras práticas desordenadas proliferaram, levando as autoridades a ficarem alertas. Por outro lado, por motivos de combate à lavagem de dinheiro e prevenção de crimes financeiros, o governo temia que grandes somas de dinheiro escapassem do controle por meio de ativos digitais. Assim, várias medidas emergenciais foram rapidamente implementadas, incluindo a proibição de que empresas participassem de negociações de criptomoedas.
A proibição de nove anos de participação de empresas mudou fundamentalmente a estrutura de participação no mercado de criptomoedas da Coreia. O mercado local passou a ser quase totalmente dominado por investidores de varejo, enquanto grandes instituições e fundos corporativos ficaram isolados fora do mercado, o que limitou o volume de negociações e a liquidez. Paralelamente, algumas instituições e fundos de alta renda que buscavam alocar ativos digitais optaram por migrar para mercados estrangeiros, buscando canais de investimento mais flexíveis.
O cenário de mercado de criptomoedas, dominado por investidores de varejo e sem a presença de grandes instituições, contrasta fortemente com mercados maduros, onde a participação institucional é significativa. Assim, embora a proibição rigorosa de 2017 tenha inicialmente sido eficaz em conter a especulação doméstica, ela também, em certa medida, causou um desalinhamento entre o mercado sul-coreano e a tendência global de institucionalização.
Na prática, as autoridades reguladoras da Coreia vêm gradualmente afrouxando as restrições às instituições. Nos últimos anos, à medida que os ativos digitais amadureceram globalmente e a participação de instituições financeiras aumentou, as autoridades perceberam que manter uma postura conservadora poderia fazer o país perder oportunidades de desenvolvimento. O Plano de Crescimento Econômico 2026 do governo sul-coreano já inclui ativos digitais na sua estratégia financeira futura.
Desde o ano passado, a Coreia começou a relaxar algumas regras de forma experimental, como permitir que organizações sem fins lucrativos e exchanges de criptomoedas vendessem seus ativos digitais. Com a elaboração das novas diretrizes pela FSC, o setor de criptomoedas para empresas recebeu uma nova autorização, marcando uma mudança importante na política de restrição, e se tornando uma peça-chave na estratégia de finanças digitais do país.
O mercado de criptomoedas da Coreia sempre foi conhecido por alta especulação e entusiasmo de investidores de varejo, mas a entrada de milhares de grandes empresas e instituições profissionais, com autorização para atuar, certamente traz muitas possibilidades de inovação.
Um exemplo citado por mídia sul-coreana é a gigante de internet Naver, que está adquirindo a controladora da exchange Upbit. Com ativos no valor de aproximadamente 27 trilhões de won, a Naver poderia teoricamente comprar cerca de 10 mil bitcoins, considerando o limite de 5%. A entrada de um volume tão grande de fundos institucionais aumentaria significativamente a liquidez e a profundidade do mercado doméstico. Analistas preveem que essa iniciativa atrairá fluxos de capital de investidores sul-coreanos que estavam de olho no exterior, trazendo-os de volta ao mercado interno por meios legais, apoiando o desenvolvimento do ecossistema de negociação local, com potencial de entrada de dezenas de trilhões de won (mais de 100 bilhões de dólares) após a liberação.
Além disso, sob a proibição, grandes empresas não podiam explorar o setor de criptomoedas, o que limitava o entusiasmo por blockchain e ativos digitais. Com a abertura, espera-se que empresas locais de criptomoedas, startups de blockchain e setores relacionados, como custódia de ativos digitais e venture capital, recebam estímulos indiretos.
A análise do Cointelegraph aponta que a entrada de instituições impulsionará a expansão de empresas e projetos de criptomoedas locais, além de promover o surgimento de um “Digital Asset Treasury” (DAT) corporativo. Além disso, a permissão para que empresas mantenham moedas de forma legal também pode facilitar parcerias internacionais de projetos blockchain, atraindo instituições estrangeiras de criptomoedas para atuar na Coreia, elevando a posição do país como centro financeiro de criptomoedas na Ásia.
No entanto, a efetividade da estratégia DAT na Coreia também enfrenta múltiplos desafios. Por um lado, as restrições políticas dificultam a atuação de “empresas de tesouraria” de criptomoedas no país, e o limite de 5% de investimento implica uma alocação relativamente baixa. Por outro lado, a maioria das empresas de tesouraria de criptomoedas, além de pioneiras como Strategy, enfrentam perdas significativas devido à queda simultânea de moedas e ações, o que esfriou o entusiasmo pelo conceito de DAT, deixando investidores globais desinteressados.
Canais de investimento mais acessíveis também reduzem a necessidade da estratégia DAT. Com a implementação de produtos de investimento regulamentados, como ETFs de Bitcoin à vista, em diversos mercados globais, investidores institucionais podem simplesmente acompanhar a valorização do Bitcoin por meio desses fundos. Como esses produtos já oferecem uma alternativa mais simples e segura, não há mais interesse em pagar prêmios por ações de empresas listadas que mantenham criptomoedas. Atualmente, a Coreia também está avançando na criação de ETFs de Bitcoin e outros ativos de base, com previsão de lançamento até o final deste ano.
Outro fator importante é que, segundo observações de mercado, o interesse pelo mercado de criptomoedas na Coreia caiu bastante na segunda metade do ano passado, com muitos investidores migrando para o mercado de ações. Em 14 de janeiro, o índice KOSPI atingiu pela primeira vez na história a marca de 4700 pontos durante o pregão, atingindo novo recorde. Setores mais fundamentados, como semicondutores, IA, construção naval e defesa, claramente não podem ser comparados ao potencial do DAT.
De qualquer forma, o sinal positivo emitido pela mudança de política na Coreia é digno de reconhecimento e expectativa. No próximo ano, com a implementação de diretrizes detalhadas e aperfeiçoamento legal, as ações de investimento real das empresas sul-coreanas merecem atenção. Contudo, para o setor de criptomoedas, é fundamental fortalecer sua base, criar novas narrativas e reconquistar a ampla participação dos investidores sul-coreanos, que é o desafio principal a ser superado.